Bierce escafedeu-se como um Belchior, mas nos deixou o Dicionário do Diabo.

bierce III

(Foto: Divulgação Carambaia) 

Ambrose Bierce (1842-1914) foi um dos maiores escritores norte-americanos. Sua produção literária é enorme: material jornalístico, textos humorísticos, ensaios, fábulas e contos. Com um tom sarcástico e um estilo negro polvilhado de humor, pelas suas histórias podemos notar tanto o sobrenatural quanto o terror psicológico ou a afirmação de uma posição pacifista originada pela sua vivência na Guerra Civil.

Os seus contos de guerra e as suas reviravoltas narrativas são, ainda hoje, uma referência para os estudiosos da Literatura dos Estados Unidos.

Um desejo de aventura fez Bierce (que tinha o apelido de Bitter Bierce, o Bierce Amargo) sair de Washington e ir para o México, que estava em pleno período revolucionário. Deixou apenas uma carta para familiares dizendo que seria um belo fim morrer fuzilado contra um muro mexicano.

Depois de cruzar a fronteira mexicana escreveu uma última missiva em Chihuahua, em dezembro de 1913. Muito se fala sobre o seu fim, mas ainda hoje pouco se sabe sobre seu destino nos últimos dias de vida. Desapareceu por completo.

Escafedeu-se como um Belchior mas, em 1911, nos legou o Dicionário do Diabo; um libelo contra a soberba humana, contra nossas pretensões. O livro, em forma de verbetes, critica a religião por sua pretensão a tudo saber, os políticos pela pretensão a serem infalíveis e os norte-americanos por sua pretensão a serem superiores aos demais (toma, Trump!).

O projeto Dicionário do Diabo ocupou metade da vida de Bierce. Ele tinha menos de 30 anos quando redigiu as primeiras definições. E, na edição final do livro, já beirava os 70. Depois disso viveria pelo menos mais três anos antes de partir para a fatídica viagem sem volta ao México.

A primeira vez que peguei esse Dicionário diabólico em mãos foi em 1996. Estava escrevendo “Aqui Jaz – o Livro dos Epitáfios” (Ática) e pesquisava obras de humor negro quando dei com a de Bitter Bierce.

Não sei se dá para dizer que foi amor à primeira vista, afinal trata-se de um léxico que define amor desta forma…

amor

(love), s.m.

Insanidade temporária curada pelo casamento ou pela remoção do paciente das influências sob as quais ele contraiu a doença. Essa doença, como a cárie e muitas outras, só se encontra entre raças civilizadas que vivem em condições artificiais; nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples gozam de imunidade contra seus ata- ques. Às vezes é fatal, mas com maior frequência para o médico do que para o paciente.

…mas digamos que houve uma grande empatia com tudo o que li.

Mas por que resolvi escrever sobre Ambrose Bierce justo hoje?  Por duas razões. A primeira delas é que acaba de sair no Brasil, pela editora Carambaia, uma versão “de luxe” e completíssima do livro. Capa dura, tradução de Rogério W. Galindo e com o adicional dos poemas sarcásticos que o autor adicionava em vários verbetes. Papa fina.

O segundo motivo é a minha homenagem digital ao mestre do humor hodierno. Criei uma página na internet chamada Glossário do Capeta.  É uma modesta tentativa de trazer à luz uma versão tropicalizada do célebre Dicionário do Diabo.

A leitura da minha página é inteiramente grátis. Só peço o seu curtir e like. Ou como diria Bierce num verbete:

aplausos

(plaudits), s.m.pl.

Moedas com que a multidão paga aqueles que a divertem e a devoram.