Quase nada mudou em 163 anos.

 

(Pixabay)

Na crônica Os Fanqueiros Literários (1859), Machado de Assis retrata, com a pena da galhofa e a tinta da ironia, um certo tipo de escritor que teria por ofício realizar trabalhos ordinários. Justamente como o efetivado pelos profissionais da fancaria, comerciantes de tecidos grosseiros de algodão, linho ou lã.

No início da conversa com o leitor, o Bruxo do Cosme Velho, já estabelece o conceito:

“A fancaria literária é a pior de todas as fancarias. É a obra grossa, por vezes mofada, que se acomoda à ondulação das espáduas do paciente freguês. Há de tudo nessa loja manufatora do talento — apesar da raridade da tela fina; e as vaidades sociais mais exigentes podem vazar-se, segundo as suas aspirações, em uma ode ou discurso parvamente retumbantes.”

 Mais próximo da conclusão, Machado termina por desancar a classe, apesar de iniciar seu texto com um sutil: “não é isto uma sátira em prosa”.

“O fanqueiro literário é uma individualidade social e marca uma das aberrações dos tempos modernos. Esse moer contínuo do espírito, que faz da inteligência uma fábrica de Manchester, repugna à natureza da própria intelectualidade. Fazer do talento uma máquina, e uma máquina de obra grossa, movida pelas probabilidades financeiras do resultado, é perder a dignidade do talento, e o pudor da consciência.”  

Nelson Rodrigues, em uma das páginas de Menina sem estrela, afirma que o Rio machadiano acabou no carnaval de 1919. Segundo ele, por causa da lascívia que tomou conta dos corsos cariocas. Sim, os costumes podem ter se alterado. Mas a Literatura, não. Fica impossível não notar a atualidade-quase-profecia do autor de Aquarelas, Balas de Estalo e A Semana.

163 anos depois, se olharmos em volta não veremos mais a velha fancaria. Perceberemos, contudo, a profusão de funkeiros literários. Esses profissionais das letras de hoje que, como seus aberrantes colegas do século XIX, seguem comercializando os mesmos artigos brutos e mal-acabados, só que de modo mais midiático do que poemático. Priorizam o Jabuti em vez de matar um leão por dia. Lançam o romance da sua geração de olho no roteiro da série do Netflix. Ou, pior, declamam seus poemas de Instagram em karaokês.

No dizer de Machado:

“Querendo imitar os espíritos sérios, lembra-se ele de colecionar os seus disparates, e ei-lo que vai de carrinho e almanaques na mão — em busca de notabilidades sociais.”

Notabilidades sociais…tudo indica que nada mudou. Talvez o carnaval do Rio, mencionado pelo Anjo Pornográfico. A dura realidade é que ficamos mesmo mais funkeiros.