Era uma vez um país de animais irracionais que raciocinavam.

(Foto: Unsplash/Harm Weustink)

Era uma vez um país de animais irracionais que raciocinavam. Ok, talvez seja uma abertura óbvia para uma fábula: a maioria delas não envolve humanos, eu sei. Mas é importante deixar claro esse aspecto desde o início. Textos envolvendo elementos fantasiosos são cada vez mais escassos. Ainda mais no site de um jornal de grande circulação, onde o noticiário compõe-se de escândalos políticos, atentados terroristas e a flutuação dos juros.

Voltando à história, um Coelho conversava com um Canguru quando uma Leoa entrou no papo e perguntou:
– Estão lembrados da Conferência Nacional dos Bichos amanhã? É a hora de levar as nossas críticas para a Coruja.
A Coruja era a presidenta do país de animais irracionais que raciocinavam. Todo ano, ela abria um grande simpósio público para que os cidadãos expusessem suas dúvidas, questionamentos e problemáticas sociais.

O Coelho, que era escritor profissional, respondeu de bate pronto:
– Claro que me lembro! E já estou com minha reivindicação prontinha.
– Qual é? – quis saber uma Serpente que parara ali para se proteger do sol causticante.
– Vou exigir da Coruja que pague direitos autorais a nós, animais, para que nossas vidas parem de ser usadas em fábulas estúpidas escritas pelos humanos!
– Apoiado! – berraram o Canguru, a Leoa e a Serpente.
Simpósio aberto, o coelho escritor profissional já se postou à frente do magote de bichos e anunciou sua questão sobre os direitos autorais.

Foi surpreendente a reação exagerada da Coruja. Dirigiu-se ao público bradando:
– Esse assunto é letra-morta! Não há o que fazer a não ser mandar prender esse Coelho Escritor que desrespeita as normas do país! Levem-no!
Uma tropa de Lobos da Polícia conduziu o Coelho diretamente à temível masmorra do Córrego Negro.

O que a Coruja, no entanto, não esperava era uma repentina convulsão social. E bem no momento do seu simpósio anual. Tudo por causa do encarceramento de um animalzinho contestador.

Como é sabido, animal unido, jamais é vencido.

Em poucas horas, após uma selvática turba, a situação inverteu-se: a Coruja foi impeachada, lançada ao cárcere, o Coelho libertado e aclamado em clareira pública.

Com o leporídeo à frente da sociedade de irracionais que raciocinavam, para que os homens pudessem criar novas fábulas mencionando bichos seria preciso que uma assembleia de Flamingos Notáveis aprovasse a moção. A proposta ainda deveria ser apreciada por um conselho superior de Raposas.

Então por que estou escrevendo esta fábula sem autorização? Bom, ela é uma versão que fiz para a internet. E, sabe como é, quando o PDF cai no Torrent vira e-book pirata no ato.

Moral da História: fiquei sem moral para escrever a moral da história.