“Moral: Conforme um padrão local e mutável do que é certo. Que tem a qualidade de conveniência geral.”

(Ambrose Bierce)

 

(Sara Richter, Pixabay)

FÁBULA CABULOSA

Um macaco andava pela planície quando deu de cara com uma onça esfomeada. Ao ver a bocarra do felino para o seu lado, pensou em subir numa árvore, mas não havia nenhuma ao redor. Quando olhou para trás notou a presença de um feroz porco-espinho. Ao lado dele, salivava a sua prole de quatro filhotes.

Se fosse para frente, a onça faminta a devorava de uma mordida. Se fosse para trás, o porco-espinho a destroçava e dividia com os filhos.

Pensou alguns segundos e caminhou na direção dos porcos. Seu último pensamento foi: “eu morro, mas pelo menos vai haver uma melhor distribuição de renda.”

DIVINA PIADA

Havia um humorista muito coerente com seus princípios. Era do contra. E escarnecia todos, sem exceção. Um dia, fez uma piada nas redes sociais sobre Deus. Foi crucificado pelos conservadores. Mas os progressistas acharam que a piada era com eles. E criticaram o humorista. Os centristas, achando-se excluídos da polêmica, passaram a atacar o bufão em seus canais na internet. Enquanto que os ateus, aproveitando-se do acontecido, foram logo metendo a boca no repertório do comediante. Assim foi.

Passaram-se algumas semanas e Deus desceu à Terra. Ficou uma eternidade elogiando a picardia do satírico. E propôs que ele fosse fazer um show de stand-up no céu. Com tudo pago e garantia de retorno à vida.

Só exigia uma coisa: nenhuma piada sobre Ele.

A TRAÍRA E O PESCADOR

Um pescador, depois de estender sua rede no rio, pescou uma traíra. Como era um peixe pequeno, pôs-se a suplicar que não o pegasse agora, mas que o soltasse.

“Quando eu ficar bem grandão”, disse, você pode me pegar, pois serei de mais útil…”

O pescador então disse: “Me engana que eu gosto, traíra.”

Atendendo ao pedido do pescador, a traíra chamou um gigantesco peixe-boi que o engoliu inteiro.

O que nos leva a pensar que, quem mexe com traíras, acaba traído.

A CIGARRA, A FORMIGA E A CORDIALIDADE

Uma cigarra encontrou uma formiga no acostamento da via Dutra.

A cigarra estava toda detonada, com o rosto cheio de hematomas.

A formiga perguntou:

– O que você anda fazendo, amiga?

– Cantando, como sempre.

– Mas e essas pancadas na tua cara?

– Teve uma briga no meu show por causa de política e sobrou porrada pra mim.

– A formiga lamentou:

– Ai, que coisa horrível, menina!

– E você – quis saber a cigarra – como está a vida?

– Um sossego! Estou morando num cemitério carioca, é uma paz. Quer alguma coisa do Leblon?

– Quero – disse a cigarra.

– Pode pedir…

A cigarra concluiu:

– Quando chegar lá no cemitério, diz pro Sérgio Buarque de Hollanda que brasileiro cordial é a mãezinha dele.

O SAGUI FABULISTA

Um sagui resolveu escrever uma fábula sobre o ambiente injusto da floresta. Abriu o texto colocando o leão como um ser arrogante que, por se achar o rei dos animais, abusava da autoridade.

Na segunda parte da narrativa criticava com ironia a sua própria categoria. Dizia que os saguis não assumiam uma posição digna na mata, viviam lambendo as botas de animais maiores em troca de proteção para poder continuar comendo suas bananas à sombra.

Por fim, o sagui fabulista acabou com a raça dos urubus. “Bichos preguiçosos, que só ficam à espreita do lixo alheio, já que não possuem QI nem para caçar”.

Uma tarde, numa clareira, foi apanhado por um bando de saguis, que o jogaram aos leões. Algumas horas depois, seus despojos foram deglutidos pelos urubus.

Moral: sagui não tem moral pra pagar de Esopo.