Assim como há cotas para minorias em universidades deveria haver algum tipo de favorecimento social para pessoas de cabelo branco.

Eu que o diga. Tenho os meus esbranquiçados desde os 21 anos e o fato me trouxe momentos bons e outros nada venturosos assim.

Uma porção grande desses momentos bons foi com o sexo oposto. Minha mulher, por exemplo, adora o fato de eu ser um grisalhão. Acho que se sentiu atraída por mim por causa – entre alguns outros atributos meus, não vamos nos esculhambar – de meus alvos cachos.

No quesito positivo me lembro também de uma viagem que fiz à Índia nos anos 1990 – quando já tinha as minhas cãs bem desenvolvidas e cultivadas.

Desembarquei em Nova Delhi e tudo corria, considerando os padrões surreais do país, dentro de uma certa normalidade. Mas, quando passei a visitar as cidades menores, aquelas com menos de 100 milhões de habitantes, a coisa degringolou. Bastava eu descer do ônibus que uma horda de bwanas corria em minhas direção e a primeira coisa que faziam era passar a mão na minha cabeleira branca.

Já andava de pescoço troncho de tanto que o fato se repetia por dias e noites. Grupos de escolares, jovens trabalhadores, velhos, mulheres, leprosos, contraparentes de Indira Gandhi, a Índia inteira interrompia o que estivesse fazendo pra esfregar o meu cocoruto.

Depois de duas semanas, um local finalmente me explicou o estranho ritual. Os indianos acham que pessoas jovens, de cabelos brancos, dão sorte. Por causa disso duas coisas aconteceram comigo nessa viagem: passei a me sentir um amuleto para aqueles asiáticos, o que foi ótimo pra minha autoestima; e tive que passar a usar shampoo para cabelos oleosos, o que foi péssimo para meu couro cabeludo.

No frigir do ovos até que foi uma experiência edificante, não é todo dia que você é tratado como um São Judas Tadeu, um São Longuinho pelos seus semelhantes. Mas experimenta trabalhar em agência de propaganda de cabelo branco pra ver se lhe tratam como uma pia de água benta.

É, vamos tocar nessa ferida na semana em que foi o Dia do Publicitário. Pra se ter uma ideia de como pega a coisa, quando obrei na DPZ, há 20 e tantos anos atrás, ouvi de um celebrado diretor de arte quando detectou tufos branquinhos em minhas melenas:
– Notou que teu cabelo tá ficando branco?

– Sim. – Pinta logo isso, meu.

– É? Não curte não?

– Nada contra, mas Criação é feita de sangue novo.

– Ué, mas eu tô com 31 anos…

– Mas o cabelo te deixa com 51 e isso não é uma boa ideia.

Teimei e não pintei. Devo ter perdido inúmeras chances de entrar em listas de profissionais a contratar por causa do meu pequeno defeito genético. Fui apelidado de Cotonete. Olhado pelas novas gerações como aquele “tiozão redator das antigas”.

Por isso apelo por uma postura não-racista em relação aos grays. Somos todos iguais: amarelos, pretos, ruivos, brancos, tingidos ou não. E o cérebro por baixo dos cabelos, inclusive, é da mesma cor do meu topete.