Luz, quero luz!

 

(Pixabay)

Bem-vindos a um dos pouquíssimos textos sem graça de minha carreira.

Para ser exato, lembro-me apenas de um assim, redigido na pré-adolescência. Por um desses fatos inexplicáveis da vida acabei, aos 13 anos, sendo raptado na saída do colégio. No esconderijo, o sequestrador mandou que eu fizesse um bilhete à família pedindo o resgate. Junto àquelas palavras dramáticas foi a pontinha da minha orelha. No dia seguinte, meus pais devolveram-na com uma carta dizendo que não tinham o dinheiro. No envelope, um vidrinho de cola Superbonder.

Episódios como o citado acima tornaram-me um adulto cético. Como muitos sabem, o ceticismo é a porta de entrada para o humorismo, essa arte do desespero contido. Foram anos e anos escrevendo em espaços como este. Eram piadas, pilhérias, patacoadas – apenas para ficar na letra “p” porque sou péssimo em sinônimos.

Sempre desejei ser um autor sério. Não um Nietzsche, com aquele bigode vassoura que assustava até padre exorcista, mas um nome minimamente valorizado pelos meus pares e pelo grande público.

É preciso dizer que não há respeitabilidade alguma na vida de um humorista. Duvida? Então tente concorrer a um prêmio Jabuti, mande seu original ao prestigiado Oceanos, alimente a esperança de que será chamado para uma live da Companhia das Letras, e aí conhecerá a chaga que é viver de fazer a vida alheia mais jocosa.

Humorista não é chamado nem para recolher as cadeiras da festa de encerramento da FLIP. Se um dos nossos aparecer em um evento artístico, vai ser para servir de escada a alguém que tem 500 mil seguidores no Instagram e lançou ensaios sobre a importância do politeísmo nórdico na vida da irmã do meio da Björk.

Humoristas e concursos literários. Outro tópico a ser lembrado numa explanação que pretende ser circunspecta. A chance de um autor humorístico ganhar, por exemplo, um prêmio da Fundação Biblioteca Nacional é a mesma que um papagaio tem de soletrar pneumoultramicroscopicossilicovulcanoconiótico – sem gaguejar.

Por isso decidi esquecer o riso e agora adotar o siso. Inclusive, acabei de colocar ponto final em um romance em estilo francamente pós-moderno. Nele, não há narrativa, personagens, plot, diálogos, capítulos, capa, folhas. E, claro, nenhuma editora interessada em ler uma cópia. Defino-me na minibiografia da obra como um seguidor de Schopenhauer e Einsenhower, especialmente a parte das piadas sobre bêbados do general.

É preciso ter coragem de promover a mudança quando chega o momento. Não quero mais ser o café com leite das Letras. Se eu for o chá de pata-de-vaca, já é um começo. Luz, quero luz, sei que além das cortinas tem o Pulitzer, o Nobel, o Troféu Imprensa. E, se o preço for bancar o sério, entrar para panelinhas, brigar por voto na ABL, estou disposto a pagar à vista.

Aliás, falando em dinheiro, se alguém souber de algum frila no núcleo de humor da Rede Globo, manda mensagem inbox.