Ninguém deve ter notado, mas na semana passada acabei postando a crônica de quinta-feira na sexta.

Devo dizer que sou um cronista minimamente organizado. Não me recordava, nesses mais de 35 anos redigindo regularmente para jornais, revistas, sites e blogs, de ter furado um prazo ou de ter me esquecido do dia em que colaboro. Como disse, não houve reação do público-leitor. Nada. Sequer uma mensagem, um e-mail, um torpedo referindo-se ao fato. Fui eu mesmo quem se incomodou com o deslize.

Quando percebi a crônica postada numa data inadequada comecei a supor o que teria me levado a comer aquela bola. Especialmente por tratar-se de um dos primeiros textos do ano, não uma narrativa requentada de meados de agosto. Pensei que provavelmente fosse a licença de dez dias que tivemos na firma o que me levara a relaxar com os prazos e os compromissos. Sabe como é, quando você começa a circular de bermuda, regata e sandálias de dedo a coisa desanda.

Logo fiz uma reflexão mais aprofundada e entendi que não tinha sido o recesso a causa da minha inédita defecção.

Em seguida passei a achar que a gafe fosse por causa do cansaço. Apesar do relax de alguns dias, eu vinha de um 2015 puxado. Trabalho em agência de publicidade é como arar a terra seca durante 14 horas sob o sol – com a possibilidade de pequenas pausas para falar com o colega do lado sobre viagens, gastronomia e a nova série do Netflix. Somar a escritura de crônicas semanais a essa rotina poderia ter me exaurido. Por outro lado vivo nessa roda-viva há décadas. No meio do angu participei de milhares de jobs e lancei dez livros, fora as antologias. Não, definitivamente não era por causa de uma vida profissional atribulada que deu-se o lamentável furo da semana passada aqui no Estadão.

Logo veio a ideia de depressão. Existem alguns tipos, já ouvi falar, que ficam meio mascaradas. Você vai levando a sua vida de um modo prosaico, no entanto está seriamente entristecido e com dúvidas existenciais arraigadas na alma. Será que eu me esquecera de escrever na data certa porque estava precisando tomar uma boa dose de lítio? Era o caso de procurar um psicanalista que interpretasse a minha mania e me fizesse voltar a produzir de uma maneira menos atabalhoada?

Foi quando decidi dar uma olhada no painel de postagens do jornal. A publicação, de fato, havia saído na madrugada de sexta. Escarafunchando um pouco mais fiz uma descoberta assaz interessante. Eu a havia postado numa quarta à noite, como sempre faço. Porém decidi programá-la para o dia seguinte. Só que digitei errado na agenda e lancei-a para os confins da sexta. Vendo outros textos mais antigos percebi, atônito, que já errara os horários outras vezes, fazendo o material sair dias antes ou depois da data aprazada.

É como dizia Sigmund Freud, parafraseando Groucho Marx: “às vezes, um charuto é só um charuto.”