A busca incessante por um disco durante três décadas.

(Tratamento da capa: Vinícius Zumpano)

Sabe o que é procurar um disco por 30 anos? Aconteceu comigo.
Quando estava no finalzinho do ginásio tínhamos uma espécie de confraria de ouvintes de som pauleira. Um dos cabeças era um colega de classe – curiosamente, hoje o embaixador brasileiro na Jamaica, o Carlos den Hartog.
Foi pelas mãos dele que ouvi meu primeiro disco de rock: Led Zeppelin II – leia-se Whole Lotta Love.
Carlinhos viajava muito e era enfronhado com os caras que transavam som heavy. Generoso, nos fornecia as novidades na base do empréstimo fraternal.
Não preciso dizer que endoidei ao ouvir aquele Led de primeira água. Antes de furar o vinil do amigo, devolvi-o e peguei emprestado mais um, Aqualung, do Jethro Tull (também conhecido como o disco do “veinho maluco”).
Pronto, estava definitivamente addicted. A próxima fase foi a entrada no prog rock – Yes, King Crimson, Emerson, Lake & Palmer, Mahavishnu Orchestra, Eno & Fripp e tantos outros que me despentearam de vez.
as ideias.
Cheguei até a ir naquele portentoso show de Rick Wakeman, no Ginásio da Portuguesa dos Desportos, no decrépito ano de 1975. A Orquestra Sinfônica de Campinas e o ator Paulo Autran acompanharam o multitecladista em “Viagem ao Centro da Terra”. E, para garantir toda a pompa e perfeição técnica havia uma equipe de 70 pessoas nos bastidores. O total da aparelhagem pesava 18 toneladas.

Ainda tonto sob os efeitos do faustoso espetáculo, recebi em casa nosso dealer de long-plays, um garoto que não estudava conosco no Colégio Bandeirantes, mas que, sabe-se lá como, descolava os últimos lançamentos britânicos. E vendia-nos a preços mais acessíveis que os do Museu do Disco.

Pegando uma gravação de capa negra, com dois raios explodindo bem ao centro, ele mefistofelicamente me sussurrou:

– Conhece White Noise? Meu, isso é pirante!

Eram épocas de baixas certezas, baixa autoestima. Muitas espinhas, muita manipulação de órgão e pouca efetivação. O fato de um sujeito que vendia material sonoro pro den Hartog afirmar que um grupo era pirante significava que eu precisava arrumar, de qualquer maneira, a pequena fortuna que ele me solicitava, custasse o que custasse.

Como não era louco de furtar nada no ambiente doméstico (minha mãe, mulher austera e religiosa, provavelmente me cortaria um dedo), ofereci-lhe a bateria Gope que ganhara da madrinha Alice em troca do valiosíssimo álbum.

Quando o moleque saiu levando a batera no lombo, logo desliguei as luzes do quarto. Na sequência mastiguei um chocolate Pan, com licor, e lancei a primeira faixa (Love Without Sound) no Garrard.

A experimentação sonora daquela banda de música eletrônica inglesa, inventada em 1968 pelo americano David Vorhaus – um baixista clássico com formação em física e engenharia eletrônica – foi devastadora em minha fisionomia moral e psíquica.

Passei a ouvir White Noise noite e dia. Mais: não queria que ninguém soubesse da existência daqueles músicos, eram só meus e de mais ninguém.

Isso até que mamãe descobriu a transação com a bateria e doou todas as minhas bolachas para a Paróquia Nossa Senhora dos Pobres do Butantã.

Desde então, eu busco ouvir sequer um vagido do Ruído Branco e recebo de volta o mais torturante e indiferente silêncio. O desejo tornou-se neurose. Já pai de dois filhos adultos, eu procurava o disco em lojas no Exterior, sites de compra e venda, eventos de Família Muda e, claro, pelos Spotify e Apple Music da vida. Nada, nem ninguém, tinha sequer uma pista para me ceder.

Semana passada, já um senhor encanecido (mas ainda esperançoso), joguei o nome “White Noise” no Google. Vai que…Apareceu uma lista recente de grupos de rock progressivo na Wikipédia! E não é que lá estava o caminho das pedras para o White Noite em vários canais de streaming?

Moral: perca a moral, perca a vergonha, mas nunca perca de vista um som que te fez o cabeção.