Para Pedro Fontana d’Ávila e Castelo Branco

Foto: Chris Leggat

Estou redigindo esta crônica aliviado. Sou daqueles que foi educado de forma rígida em relação à ética e aos valores morais. Dizia minha mãe, Carlos Antônio, se tu deres cheque sem fundos apanhas na cara, podes ter barba e bigode! Papai foi tão honesto que – coisas do Brasil – caia todo ano na malha fina do Leão. Aqui quem é reto é o que entra nas estradas mais tortuosas, a laranja doce é a que mais apanha varadas.

Comigo não foi diferente. Todas as vezes que pensei em me locupletar enxergava logo a mão magra de dona Irací surrando-me os queixos. Pois não é que, mesmo com toda esse histórico, o Diabo não veio me atentar?

Explico. Um dos meus livros de cabeceira é “Confraria dos tolos”, de John Kennedy Toole. A obra é de uma mordacidade demolidora. É óbvio, desde que a vi pela primeira vez, identifiquei-me.

Obsessivo que sou, passei a ler qualquer coisa sobre Toole. Descobri uma biografia que afirmava, com todas as letras, que sua autora favorita era a sulista Flannery O’Connor. Como sempre acontece comigo, precisava tomar contato com o pensamento connoriano de imediato. O livro mais indicado pelos críticos era “Contos Completos” – lançado pela Cosac Naify.

Começava a pantomima, amigo leitor. Como você deve saber, ilustrado que é, a referida editora fechou as portas. Mais: vendeu seu depósito para outras casas editoriais e também os direitos de todas as obras restantes. Em resumo – pois isto aqui é uma crônica, não um tratado sobre sintomas maníacos-depressivos – ficou impossível ler “Contos Completos”, de Flannery O’Connor. Impossível talvez seja exagero. Pode-se comprar um exemplar no Mercado Livre por 380 reais, valor muitíssimo acima de minhas possibilidades financeiras.

Apesar de todos os reveses, um pessoa tomada por espíritos obsessores não desiste. Comecei a incomodar meus seguidores nas redes sociais implorando pelo livro como se os pedisse para salvar um filho da forca.

Nenhum cristão velho ou novo possuía a bendita brochura. Vasculhei dúzias de sebos no centro da cidade, naveguei por alfarrábios nos reinos de Castela e Aragão, associei-me a perfis de venda de raridades no Facebook e nenhum sinal de Flannery O’Connor.

Numa manhã de sábado, já desestimulado, encontrei os “Contos Completos” e Mefistófeles numa biblioteca pública. Aluguei o calhamaço, no ato, por uma quinzena. Passados esses dias renovei a locação por mais 15 dias. Mefistófeles começou a assoprar em meus ouvidos: Carlos Antônio, ligue na biblioteca e diga que perdeu o livro. Aposto que lá acham que Flannery é um manual sobre como usar flanela nos móveis de casa. Tu já correste tanto atrás disso, o livro é teu. Só teu! E por uma multazinha de nada…

Os argumentos do Cramulhão me faziam sentido. Afinal, para quem nunca se desencaminhou na vida, o que é um livrinho afanado da rede pública? E aquele jovem que pegou mais de 300 livros da biblioteca de Itápolis? A população sensibilizada não estava tentando lhe arrumar um advogado de defesa? Só ia pegar um livro usado, não 300, eu pensava.

Perdido em indagações, recebi uma mensagem de meu filho. Pedia para jantar comigo naquela noite. Quando ordenávamos as entradas, ele tirou de dentro do casaco um volume cinza, encadernado em capa dura. Pai, achei! Ele agora é seu: o livro da Flannery!

Não é que o neto de dona Irací acabou me lembrando, sem saber de nada, que nunca deve-se dar cheque sem fundos? Que alívio do diabo…