Amanda agora vai todas as terças e quintas encontrar-se com Ele.

(Ilustração: Vinícius Zumpano)

A gente se conheceu na empresa. Ela ficava no Financeiro, eu no TI. Um dia almoçamos na mesma mesa do refeitório e batemos um papo. Foi engraçado, tínhamos uma pá de coisas em comum. As mesmas músicas, as mesmas séries, blogs e redes sociais. Não demorou nada, viramos namorados.

Nossa diversão era a de todo casal com menos de 30: nos feriados largávamos tudo pra pegar uma prainha. Ficávamos sempre em alguma pousada em Ubatuba ou Picinguaba curtindo o sol e o sal. Amanda foi das poucas garotas que cogitei me amarrar. Já tinha até ficado com outras mais chamativas. Mas quando acontece a tal da química, não tem acordo: a pessoa é aquela e ponto.

Certos disso iniciamos uma conversa séria sobre viver sob o mesmo teto. Eu sabia o que queria, no meu pensamento então era casar logo. No padre, no civil, tudo bonitinho. Só que a Amanda achava besteira. Por que não pegar o dinheiro da festa e gastar numa viagem maneira? Ir, de repente, para o Chile? Santiago era o sonho de consumo dela. Queria muito conhecer a casa do poeta Neruda, ver o palácio em que bombardearam o Allende. Devia ser por causa do passado de estudante dela, cursou Economia em faculdade do Estado, sabe como é esse povo.

Ainda tentei contra-argumentar, mas não tem como discutir números com a Amanda. Ela é uma calculadora HP Pro quando o assunto é conta. Logo me convenceu que seria um ótimo negócio alugar um apartamento melhorzinho e fazer uma lua de mel caprichada, em vez de promover o casório em bufê.

Viajamos ao Chile e foi animal. Aliás, nossos primeiros quatro anos vivendo juntos foram sensacionais. Quando entrou pelo quinto é que azedou. Assim, do nada, a Amanda virou outra criatura. Vivia calada, não bebia mais cerveja comigo na varandinha do apê, quase nunca ria. Fiquei de orelha em pé. Uma tarde voltei mais cedo da firma e ela estava cochichando com alguém no quarto. Era no celular provavelmente.

Não quis invadir o ambiente, mas deu para perceber que só podia ser outro homem. Quando ela desceu no elevador para buscar tomates no empório do Aristides, entrei no quarto e remexi as gavetas do criado mudo. A primeira coisa que achei foi a foto do sujeito. Podia esperar tudo, que a Amanda saísse com alguém do trabalho, com um vizinho, até com uma mulher, mas nunca com alguém daquele naipe. Cabeludo, barbudo, de sandálias toscas, quase um hippie. Fingi que não sabia de nada, afinal, a nossa união, do meu ponto de vista, nem Deus dissolvia.

Amanda agora vai todas as terças e quintas encontrar-se com ele. Nesses dias ela bota uma roupa diferente, escura, para parecer mais séria. Fica fora de casa por duas horas, volta compungida, fala que não está com fome, depois faz uma oração no quarto e dorme. Um primo meu, que é investigador, disse que minha mulher se encontra com o outro num templo. E o cara fica prometendo que, um dia, vai salvá-la. Não tenho mais dúvida: ela me trocou por Jesus.