Como escrevo sobre livros, sempre caem em minhas mãos obras inusitadas.

 

(Pixabay)

Como escrevo sobre livros, sempre caem em minhas mãos obras inusitadas. São edições que abordam assuntos muito diferentes dos temas que me interessam no dia a dia. A bola da vez foi um dicionário online sobre medos e fobias. Eu já tinha folheado coisas do gênero, como um glossário acerca de enfermidades (que faria a alegria de qualquer hipocondríaco). Ou um similar que colocava em ordem alfabética toda uma série de taras. Porém, um com tais características, ainda não havia consultado. Chamou-me logo atenção o verbete amatofobia, o medo de poeira. Digamos que se trata de uma paúra, no mínimo, rara. O portador nunca poderá, por exemplo, ir a um rali. O que, pensando bem, não é lá um grande dilema existencial. Quem gosta de pó é cartel mexicano e pick-up do Estado Islâmico.

Já a cenosilicafobiamedo paralisante e irracional de ver copos vazios, principalmente de bebidas alcóolicas – é bem mais complexa. A vida, tantos afirmam, se divide entre os que acham que o copo está meio cheio, ou meio vazio. Para os cenosilicafóbicos, as taças precisam estar obrigatoriamente com algum líquido dentro. De preferência, até a boca. Para identificar alguém com tal ojeriza é simples: é quem sai correndo na hora do brinde. Sai do ambiente como o flatusfóbico. Este, para seu desespero e dos convivas, libera, de modo não-intencional, um flato na atmosfera. É o seu maior apavoramento, mesmo sendo um peidinho fofo. E, claro, vai desejar sumir do pedaço na hora.

Falando em desaparecer, antes que me chutem desta crônica, permitam que me defenda. Não estou aqui para ridiculizar os fóbicos e suas dificuldades. Posso tratar o assunto, como estou abordando, com desprendimento, porque sou um deles.

Comecei como um fobosfóbico. Tinha um medo enorme de ter medo. Por conseguinte, disfarçava de todos as maneiras, meus temores. Foram anos de sofrimento psicológico. Até que sai do armário. Assumi, perante a sociedade, que padecia de dextrofobia — o horror de objetos do lado direito do corpo. E não só dos utensílios, mas de políticos, parentes, colegas, vizinhos e até das namoradas. Ficava à destra, era cancelado, sem perdão.

Depois de muita conscientização, apaziguamento, compressas e sangrias, tive uma considerável melhora. O terror, contudo, voltou no início de 2019. A partir dali desenvolvi uma severa mitofobia. Que, para o dicionário que tenho agora no colo, é o pânico de mitos, histórias ou declarações falsas. Com um Messias governando o país, e essa indústria pesada de fake news, é praticamente impossível ficar curado do meu mal. Inclusive, já estou com o pressentimento de que, em breve, desenvolverei uma grave coprofobia: o medo de fezes.  Infelizmente, é só o que temos até o ano que vem.

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