Nunca imaginei que cuspir fosse algo tão científico.

Para os odontólogos, a cuspidura ou cuspidela é uma função adaptativa do sistema estomatognático e refere-se a um fenômeno voluntário.

Em outras palavras, o posicionamento da mandíbula, os movimentos da língua, bochechas e lábios, que resultam na expulsão do conteúdo salivar, devem ser integrados em altos níveis ao sistema nervoso central, especialmente os impulsos provindos do córtex cerebral, que operam a sinapse em pares de nervos cranianos, tabuleiro em que o hipotálamo parece ser peça fundamental.

Dito assim, nem parece a deselegância ou a hostilidade que costumamos associar ao gesto de mandar cuspo para fora da boca.

O assunto cuspidela sempre me faz lembrar uma visita que fiz a Índia. Peguei um jato comercial para ir de uma região a outra do país. O piloto, um sikh daqueles cabeludões, estacionou a aeronave. E, antes de nos chamar com um gesto de mão para adentrarmos , abriu a janela da cabine e deu uma grossa e sonora escarrada no piso do aeroporto.

Era evidente que o comandante estava apenas, como dizem os especialistas no assunto, cuspindo secreção originada no fundo da garganta ou após expectoração.

Mas que passou algo estranho em quem presenciou a cena, ah, passou.

No entanto, aquela foi só uma das primeiras cusparadas públicas que presenciei naquela viagem. Dali em diante passei a notar que o contingente de um bilhão de indianos passava o dia inteiro mandando saliva e catarro para cima de qualquer coisa palpável.

Vi senhoras cuspindo sobre raízes de árvores, idosos expelindo em estátuas, adultos expectorando nas águas do hierático rio Ganges e até crianças lançando saliva no próprio pé – por falta de prática, é claro.

Diante de quadro tão dantesco comecei a acreditar que as vacas eram sagradas ali porque, diferentemente dos homens, apenas babam.

Fiquei mal impressionado com a falta de civilidade indiana por anos. Contudo, é sabido, o tempo cura tudo.

Há alguns anos fui a Londres em lua de mel. Sabedor das possibilidades exóticas que a velha Londinium proporciona a qualquer um, depois de uma boa pesquisa em guias de gastronomia, levei a Simoni a um restaurante indiano ortodoxo. Daqueles que um natural de Delhi, residente no Reino Unido, recomendaria a outro natural de Delhi.

Era um 25 de dezembro gelado. A cidade parecia ter sido evacuada após um ataque terrorista. Se bobear até o Almirante Nelson tinha saído do seu posto de ícone em Trafalgar Square pra comer “Christmas Pudding” com a família.

Chegamos enregelados a King Cross. A visão da placa do Euro Tandoori nos reanimou. Logo vieram dois animados garçons e nos envolveram com boas vindas, cardápios e um sotaque do Norte indiano.

Fomos de tandoori de frango. A comida chegou quente em duplo sentido: ardente, por ter vindo do forno, e pela pimenta, que logo nos fez suar pelo cocoruto.

Estávamos no momento pleno da ceia quando o garçom que veio retirar os pratos emitiu um estranho som bem ao pé do meu ouvido:

– Arout!

Parecia improvável, mas o cara arrotara. Ficamos nos entreolhando, meio descrentes. Mas uma regurgitação às vezes escapa, nada que não pudesse acontecer conosco.

Só que, logo na sequência, iniciou-se uma espécie de jogral de eructações. O sujeito gordo do caixa, mais ao fundo, mandou um ainda mais sonoro:

– Arouuuuuuuuuuut!

E o lavador de pratos, que passava pelo salão, brindou-nos com um longo e um curto:

– Arouuuut-arout!

Ao voltar ao Brasil soube por amigos que arrotar depois das refeições é uma homenagem às habilidades do cozinheiro em certas culturas.

É nojento, sem dúvida. Mas é melhor do que ser cuspido durante a sobremesa.