“Antes que eu discurse, tenho algo importante para dizer.” – Groucho Marx.

(Foto: Carlos Castelo)

“Senhoras e senhoras, boa tarde.

Antes de mais nada, muito obrigado pelo convite para essa edição da FLIP 2019. Confesso que me surpreendi ao receber o e-mail da organização. Sou um autor desconhecido nos meios literário. Nunca sai na Piauí, na Quatro Cinco Um, nem frequento o bar Mercearia, na Vila Madalena.
Nunca dei palestras em bibliotecas públicas, nem mesmo fui convidado para ser professor em cursos de escrita criativa.

Por isso, as senhoras e os senhores, podem imaginar a minha surpresa ao me dizerem que seria um honra ter-me aqui em Paraty discorrendo sobre minha obra – se é que é possível designar o que faço de obra.

Escrevo manuais. Não são manuais lexicográficos ou de autoajuda, como alguns poderiam imaginar. Produzo, na verdade, manuais de produtos diversos. De automóveis, geladeiras, televisores, computadores. Contudo, minha especialidade são as bulas de remédios. Estou nessa atividade há mais de 30 anos. E, graças a ela, sobrevivemos eu e minha família, desde sempre. Quando me indagam que gênero de escritor eu sou, respondo da mesma maneira: “sou um artista comercial”.

Na área de teatro há o ator shakesperiano, o ator televisivo e o palhaço de circo. A raiz entre eles é a mesma, o que muda apenas é o tipo de material que cada um utiliza. Aqui na FLIP, temos os livros de Euclides da Cunha sendo analisados em destaque. “Os Sertões”, sem dúvida, é seu texto mais festejado. O meu, mais canônico, é a bula do Simeticon, um medicamento que ajuda a combater a flatulência.

É, os senhores riem. Mas pensem na dificuldade que é redigir um material cujo tema central é o peido. E isso tendo que manter o rigor científico exigido por um manual de instruções farmacêuticas. Tudo bem, pode não ser um poema de João Cabral, um pensamento de Guimarães Rosa, mas não é também um livro desses garotos do Youtube que agora estão dando palestras ali na praça central da cidade.

Essa semana terminei um compêndio para forno de microondas. Se desejarem conhecer um pouco do meu estilo, o endereço do link está no programa da minha apresentação na mesa de todos os presentes.

Para finalizar a minha fala, gostaria de lhes explicar melhor o porquê de minha presença aqui hoje.

Há dois anos fui procurado por um professor de Estética, da Universidade da Colúmbia Britânica, do Canadá. Ele ia defender a tese de seu pós-doutorado. De forma bem sintética, a sua ideia era a de que, se uma bula de remédio fosse escrita em forma de versos, teríamos – ao final – uma obra semelhante a ‘Os Cantos’, de Ezra Pound.

E foi o que fizemos. Cedi-lhe a bula do Hemorrodiol, ele a versificou e agora nosso livro “Lira dos Frascos e Comprimidos” será lançado na Festa Literária. Sairei do auditório diretamente para a Casa de Cultura e, junto com mais três poetas pós-modernos, autografarei minha primeira incursão na poesia.

Ars curandi, longa vita!

Muito obrigado a todos.”