“O ciúme é um latido que atrai os ladrões.”
(Karl Kraus)

(Pixabay)

Seu Farid vivia maridalmente com dona Clélia desde a Guerra dos Seis Dias. Já tinham gerado uma filharada, três dos quais inclusivamente trabalhavam na loja de armarinhos do pai, ali na área da Previdência. Cada qual já tinha o seu domicílio próprio; o velho turco providenciara tudo e, em vida, com o fito de não deixar nó pelas costas quando fosse ter com as 11 mil virgens.
Dona Clélia, dama oriunda de extrato social de baixo extrato, teve seu primeiro contato com seu Farid num dancing da avenida Ipiranga. As línguas agoureiras diziam que o estabelecimento, na realidade, era de entretenimento adulto – no sentido mais adulto possível. Troncho de benquerença por sua parceira de boleros e tangos, seu Farid não demorou para convidá-la a trocar argolas.
Matrimoniada, dona Clélia veio a ter comportamento aciumentado. Parecia até que o esposo era o pé-de-fandango do casal. Deu logo para botar deslustre nos camaradas de canastra do marido. Em seguida, tocou na rua as serviçais, com menos de 25 anos de idade, trocando-as por arcaicas senhoras que tinham mais cara de freiras da clausura do Mosteiro da Luz.
Bonacheiroso, seu Farid tinha pensar diverso sobre aqueles achaques esposais: eram a prova do paixonismo de dona Clélia por sua pessoa.  Até que a patroa, certa noite, abusou do excesso de zelo e fez-lhe passar por uma que o deixou de ovo virado.
O homem tinha sido invitado para uma homenagem na Associação Comercial do Sub-Distrito do Butantã. Cousa reputada; justamente por sua laboração no ramo dos armarinhos e correlatos, com diploma, presença de vice-prefeito e medalha de honra aos méritos auferidos.
Meia-de-seda daqui, amendoim confeitado dali, quando chegou a ocasião do medalhamento já passava das 12 da noite. Seu Farid acabou ancorando em casa já batendo mais de duas da matina no cuco do corredor.
Desperta e paramentada como se fosse a uma tertúlia, dona Clélia abriu a porta do WC e apontou a banheira cheia de água morna. Emendou, numa classe quase crassa:
– Tira a roupa e mergulha, Farid.
– Por que? – perguntou ele, mais ressabiado que lagosta em tanque d’água de restaurante chinês.
– Porque sim.
Resignoso, restou-lhe apenas imergir-se. A mulher botou as butucas na boiação como se o marido estivesse flutuando no Mar Morto. Após alguns minutos de observação, dona Clélia o liberou das abluções.
Nos lençóis, no calor da intimidade edredônica, seu Farid quis conjuminar melhor a situação que acabara de passar na tina de água. Dona Clélia, mais serenada, explicou:
– Confio em você, mas nas outras, não. Por isso, fiz um testezinho que a comadre Jamila me ensinou.
– Teste? – surpreendeu-se Farid.
– Sim. Quando o homem dela chegava tarde dos arrruamentos e Jamila desconfiava de algum desaprumo, botava-o desvestido na banheira.
– E o quê mais?
– Via se as bolas boiavam.
– Hummm, e se subiam?
– É que estavam vazias.
– E daí, Clelhinha?
– Daí que o esposo tinha usado os berloques…
Seu Farid soltou uma gargalhada daquelas de traumatizar recém-nascido. E, curioso, ainda perguntou:
– E o homem da Jamila, tava de tareco cheio ou vazio?
– Vazio, disse dona Clélia, os dele subiram loguinho pra flor d’água…
– E então…?
– Comadre Jamila deu-lhe uma peia de toalha molhada. Nunca mais saiu da lei e da ordem.
Sorriram tanto que aquela noite desdormiram.