Adoro samba, muita gente sabe desse meu amor. Mas admito que tenho horror a cuíca.

Sei lá a razão, mas como pensar num trecho qualquer do Anel de Nibelungo com o Diogo Nogueira gritando: “chora, cuiquinha, chora!”. Não rola.

Não há dúvida, a cuíca é um instrumento singular. Até porque se fosse plural só os surdos aguentariam ir numa roda de samba.

A cuíca numa orquestra sinfônica então é como uma motoniveladora num berçário, não há nada delicado que sobreviva. Que eu saiba, nem a música contemporânea mais radical usa cuíca em suas partituras. E o minimalismo então? Já imaginaram uma sinfonia de Philip Glass para cuíca, com a mesma sequência de notas sendo berradas agudamente por um longo tempo? Não encontrariam maestro no mundo inteiro disposto a reger algo com tais características.

A cuíca é uma aberração até no manejo. Nenhum instrumento do mundo ocidental usa uma toalha molhada pra produzir notas musicais. Nem o washboard, que nada mais é que uma pia de cozinha estilizada, é tão bizarro assim.

Na História Universal, ela continuaria sendo o que é. Ou alguém aí enxerga Nero incendiando Roma tocando uma cuíca? Ou Einstein afirmando que Deus não toca cuíca para o universo?

A questão é que é o instrumento do Brasil por excelência. É aquele busão da Seleção Brasileira indo pro estádio perder de 7 x 1 pra Alemanha com o Fred manipulando a toalhinha. É coisa nossa, como a dengue e o sushi de manga rosa com requeijão.

Já sei que os ortodoxos vão querer me dar uma agogozada no coco. Mas tudo bem, eu até prefiro. Melhor que uma cuicada no escutador de samba.

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Vamos chamá-lo de Espósito. Era o pandeirista de um grupo de música vanguardista-experimental que criamos no auge da prepotência juvenil.  Excelente pandeiro-player o Espósito. Mas, digamos, o menos intelectual da banda – sem nenhum preconceito aqui contra os percussionistas em geral.

Espósito era assim, meio toscão, fazer o quê?  E podia sê-lo mesmo tocando viola-da-gamba ou clarone.

Num ensaio ouviu um de nós falando sobre “fantasias sexuais”.  Aproximou-se e quis saber o que significava aquela estranha expressão.

– É um teatrinho que se faz durante a transa, Espósito – explicou-lhe didaticamente o nosso baixista. E ainda exemplificou:

– Por exemplo, se a tua mulher fingir que é um prostituta na cama com você, isso seria uma fantasia sexual.

Espósito ficou com aquela cara de pôquer. Dias depois, Norma, a esposa dele, chegou ao ensaio com um bruta hematoma na bochecha. Todos ficaram horrorizados. Ela disse:

– Alguém explicou ao Espósito o que era fantasia sexual. Ele me pediu pra imitar uma puta no quarto. Imitei e ele achou que ficou bom demais. Daí me lascou uma pandeirada na cara.