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(Ilustração: Arquivo do autor)

Crônica é chato. É o que mais se ouve por aí. Desagradável porque, para uns é textão, para outros, literatura menor.

Certos editores não querem publicar o gênero, talvez porque não venda feito livros de colorir, mas também estão longe de admitir o fato, para não passar por brucutus politicamente incorretos.

Crônica é chato, já virou estribilho. O próprio Guimarães Rosa aconselhava seus amigos escritores a não fazer biscoitos, mas pirâmides. O que na época significava não perder tempo com textos curtos, folhetinescos e erigir romances do calibre do seu Grande Sertão: Veredas, um catatau até no nome. Hoje, o equivalente óbvio seria evitar postar no Facebook, Twitter e escrever textos do tipo deste.

São tantos em coro corroborando a chatice crônica que, às vezes, suponho estar indo por um caminho torto. Insistindo no erro de toda semana cravar duas, três crônicas em publicações diversas. Podia dedicar minhas horas livres redigindo o romance-cânone da minha geração, caçando Pokémon ou derretendo o joystick de tanto jogar GTA.

Mas virou mania. Apesar de ter que ouvir o mantra diário: ninguém tem mais tempo de ler nada com mais de 140 caracteres.

Crônica é chato, me diz a vestibulanda no metrô. Você começa a ler uma e perde o fio da meada da última temporada de Game of Thrones, fica com pouquíssimo tempo para ver os GIF’s que compartilham naquele grupo de família no whatsapp, não consegue acompanhar a timeline do Andrea Bocelli no instagram.

De mais a mais, estamos falando de um tipo de escrita que já deveria ter se aposentado. Afinal, tudo o que dura mais de um semestre em 2016 não merece perdurar até o bimestre seguinte – defende a barista do pub.

Crônica é chato, ouço alguém sussurrar na fila da tarde de autógrafos. E ficar repetindo que ela é sacal irrita mais ainda, não é mesmo? Todos já estão fartos de saber que os índices de leitura no país são menores que as chances do al-Baghdadi fazer um discurso recomendando a leitura da oração de São Francisco de Assis. Para que escolher esse tema para parir mais uma crônica cacete dessas?

Por isso é que o texto ligeiro virou esse negócio tão modorrento. Se até os parentes e amigos do Rubem Braga insistiam para ele escrever contos, ensaios, romances é porque esse misto de jornalismo e poesia não deve ser boa bisca – leio no post da blogueira.

Como veem são dezenas de argumentações contra essa invenção genuinamente nacional. Uma zaga já começa a concordar com quem diz que crônica é mais chato que dançar com a irmã.

Só não dá para entender uma coisa: se é tão chato assim, por que você leu esta até o final?

Masoquismo?