Quando a forma supera o conteúdo.

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(Foto: Carlos Castelo)

Nunca me arvorei a pesquisar padrões humanos no momento da compra. E olha que estou há lustros trabalhando como publicitário. Acho enfadonho analisar o ser humano do ponto de vista do consumo quando há tantas outras facetas a deslindar.

Mas essa onda recente dos livros de colorir mexeu comigo e venho tentando fazer uma sociologia rápida do fenômeno. Comecei a me perguntar: por que um grande número de adultos, de repente, começa a se interessar por pintar e não por ler as obras?

Uma criança ilustra as histórias porque ainda não foi alfabetizada. Ou porque já sabe juntar lé com cré, mas ainda não atingiu maturidade suficiente pra desfrutar da experiência linguística. Se o vivente tem mais de 18 anos e fica enfeitando folha de papel há algo de errado. Ou com sua pessoa ou com as editoras.

Como diria Machado de Assis em O Cônego ou Metafísica do Estilo, vamos entrar na cabeça desse hipotético leitor – ou, melhor dizendo, desse pintor.

Vejam só como é fantástica a literatura e não poderia nunca ser substituída por canetinhas Pilot coloridas. Pronto! Em menos de cinco linhas já estamos entre o o lóbulo frontal e o occipital do nosso analisado. E, de bate pronto, já dá pra notar que ele não é nada chegado a anexar adjetivos a substantivos. Vê-se claramente que as suas preferências não estão ligadas às letras. Pulula ali o Pokemon Go, fervilha acolá a luta de MMA. E perceba, considerado leitor, bem pertinho do hipotálamo aquele programa de auditório calhorda.

– Seu preconceituoso de uma figa! – dirá meu receptor.

Mas calma lá, amigo que me interpreta (e que felizmente não me pinta). Nada contra as preferências pessoais, cada um consome o que melhor lhe aprouver. Mas, caramba, não tentar tomar contato sequer com uma história em quadrinhos ou uma revista Seleções! É passar a vida sendo um pintor de papel, quando podia ser um colorista do espírito.

Como disse acima, as editoras também não podem ficar de fora desse imbróglio. E como estamos indo de cérebro em cérebro entremos logo no de um editor. Um, dois e… cá estamos no hipocampo de um deles. E repare, era como eu imaginava: pilhas de projetos na mesa ditados por valores puramente comerciais. As relações públicas vindo antes das relações artísticas.

Aí deu no que deu: a massa preferindo fazer um Romero Britto básico a focar alguns minutos do seu dia na fruição de um texto.

E é só o começo, viu? Não demora e usarão livros para tudo, menos para leitura. É como diz aquela minha amiga editora-poliana:

– Relaxa, pelo menos ainda não é um Fahrenheit 451, com o Estado queimando a Literatura…