O editor estava ansioso por fechar a página de Variedades. O cronista, nem tanto. Mas, ainda assim, resolveu iniciar sua narrativa. Sentou-se em frente à sua tela retangular, marca LG, de origem coreana, cinza, com filetes pretos ao redor dos seus quatro ângulos principais. 

Acionou o botão “on”. 

Um som inusitado veio das caixas Turbo Compact 100 – melhor dizendo, um quase trinado melódico e compassado.

A máquina começou a processar as informações do programa. Como estava com uma memória abaixo das especificações pedidas no manual, o computador demorava bastante para ficar apto a abrir os programas de texto que o cronista usava para tecer suas observações diárias.

Foi por essa razão que ele resolveu ir até o fumódromo da redação para dar umas tragadas. Abriu um maço de Camel, puxou do bolsinho da calça jeans “stone-washed” um isqueiro Bic azul e acendeu a ponta ligeiramente encarquilhada do cigarro.

Deu meia-dúzia de longas baforadas e jogou a bituca ainda pelo meio num cinzeiro improvisado em folhas flandres de uma antiga lata de refrigerante.

Ao voltar para a mesa, o computador acabava de montar o último programa no “desktop”.

Muitas vezes, nesse momento, se o operador clicasse por sobre um ícone, ele ainda não abriria adequadamente.

Era mais sensato aguardar um minuto, até que todo o “hardware” estivesse preparado para as tarefas a serem comandadas. Se houvesse ansiedade para fazê-lo funcionar naquela hora delicada, podia acontecer do sistema entrar em pane. E todo o processo de desligar, reiniciar e aguardar a máquina se autocompactar teria de ser refeito.

Foi exatamente o que se deu.

Tal falha costumava alterar sobremaneira o humor do cronista.

Ele chegou mesmo a apertar com agressividade o botão “off”, depois o “on” e a dizer, entredentes,  um termo pornográfico muito pessoal, dito em momentos de grande estresse, expressando sua angústia em relação à impotência diante de um ser inanimado.

O computador, como dissemos, foi então vagarosamente repetindo os processos de montagem do sistema.

Desta vez, o cronista aproveitou os minutos de espera para ir até o WC da redação.

Antes de iniciar a micção propriamente dita, olhou-se longamente no espelho do banheiro. 

Lembrou-se que devia ter passado num dermatologista para retirar pequenas verrugas que lhe apareciam no pescoço – mas esquecera por completo a consulta. 

Viu ainda que seu corte de cabelo precisava ser revisto, pois a impressão que tinha ao se mirar assim, de frente, era a de que estava com um esquilo morto sobre a cabeça.

Urinou placidamente no segundo mictório da esquerda para a direita – eram quatro ao todo. Chegou a assobiar um trecho da “Marcha Turca” e retornou à mesa.

Ficou contente ao ver que todos os programas da máquina estavam definitivamente instalados.

Abriu o de textos, ordenou uma página em branco, suspirou e começou a escrever: “Era sábado e Rosimeire resolveu levar o cachorro para passear no parque do Ibirapuera. Era uma daquelas manhãs típicas paulistanas em que…”

Bem nessa hora faltou luz.