(Foto: Sebastian Mantel/Unsplash)

Nada contra o Rio. Nem paulista eu sou pra manter a velha rivalidade. Inclusive tenho até familiares lá e me recebem muitíssimo bem.

A única coisa que não curto nos guanabarinos é aquele exagero em exaltar os dotes da cidade. Você chega lá, guarda as malas no quarto, senta na varanda do hotel com aquela vista da Baía à sua frente. Daí logo vem o bell boy, fica olhando também (como se não morasse lá desde o nascimento) e – antes de você fazer qualquer comentário – já fala, meio suspirando:

– Coisa linda o Rio, hein? Não tem igual.

Moro em São Paulo. Praia pra mim é um lugar que serve pra empanar gente. E, em alguns casos, enfarinhar e fritar ao sol.
Ninguém bebe cicuta ou se joga do viaduto se não tomar um banho de mar. Mas por aquelas bandas tudo é diferente. No dia seguinte se você não manifestar veementemente o desejo de ir ao Leblon ou à Barra, lá vem o carioca:

– Tá doente, merrmão? Não qué pegá uma prainha, porra?

Tudo bem, você tá na Guanabara dos outros, vamos a la playa então. Chegando lá é aquela algaravia: gente vendendo biscoito Globo, misturado com artista da Globo, sanduíche natural e um fumacê de maconha dos diabos. Uma água do mar mais gelada que bunda de rã. Mas beleza, estamos na cidade mais bela do mundo, que tal relaxar um pouco? Nesse instante achega-se uma tia lá das Laranjeiras e fala:

– Taix deprimido, Carrrrlim? Istáix na Cidade Maravilhosa, garoto! Era pra ixtarrr rindo às bandeiraix despregadaix…

Fazer o quê, mandar sua tia-avó Dequinha ir se ferrar? Você ri.
Faz mais. Vai até um daqueles quiosques, onde ficam o Romário e o Zeca Pagodinho, e pega uma água de coco. Volta pro guarda-sol forçando um sorrisão. Família a gente sempre atende. Então, o sobrinho mais velho da titia lá das Laranjeiras, aproveita seu súbito bom humor e manda essa proposta:

– Vamuix pra Lapa!

No caminho, ele embica o carro numa favela. Acende um baseado e sai cumprimentando um monte de carinhas armados de fuzis. Até aí tudo bem, o problema é subir aclives enormes até alcançar a tendinha de dona Carmelinda pra provar da feijoada carioca. O sol está de explodir carapuça de caranguejo.

– Fala a real, Carrrlim, tu nunca provou um feijão desse lá em Sampa!

Educadamente, diz-se que sim, aquilo é que é um feijão preto na vida da pessoa.

– E a cachacinha do seu Antenor, pega aê, porra. Sampa tem uma pinga dessa, Carrrlim?

Nos bares da Lapa adentra-se em dúzias de botequins pra escolher em qual vai se ouvir o mesmo chorinho. Muitas cervejas de garrafa depois – e dezenas de elogios ao samba e à boêmia carioca – e resolve-se dar um mergulho de fim de tarde na praia X.

Você senta, respira fundo a maresia vinda das Ilhas Cagarras e fica olhando as ondas quebrarem. E o camarada da asa delta que quase caiu em cima da cabeça de uma criança. Naquela hora baixa um silêncio gostoso. Um bálsamo após a gincana de sol, calçadão, água salgada, brejas, comida ogra e gírias urbanas. Só que aproxima-se aquele outro primo da Tijuca e diz no seu tímpano:

– Coisa linda o Rio, hein? Não tem igual.