O diretor de criação entra na agência e diz a um redator e a um diretor de arte:

– Preciso passar um briefing pra vocês agora, é pra ontem…

Nem dez da matina. Os computadores nem ligados estão. É aquele momento de tomar um cafezinho, checar os e-mails no celular, ir acordando lentamente. Um pedido assim, àquela altura da manhã, deve ser mico.

– É o seguinte, galerinha – informa o chefe – está saindo o novo livro de crônicas de um brotherzaço meu. A gente precisa fazer um anúncio de página dupla pra divulgar a bagaça.

Ele entrega o release e a obra ao dois, que se entreolham, nada animados.  O diretor de criação segue dando as informações gerais:

– Se liguem, ó: o nome do autor é Carlos Castelo. Já ouviram falar desse camarada?

O redator, depois de um longo bocejo, grunhe:

– Castelo Rá-Tim-Bum?

– Não, velho, quê é isso? O cara é redator publicitário como você. Só que tem um pé no jornalismo e escreve crônicas na imprensa faz uma cara. Foi também letrista daquela banda iconoclasta, dos anos 1980, o Língua de Trapo, saca?

– Não tô sabendo. Mas no release fala que o tal do Carlos Castelo foi colaborador do Estadão, Playboy, O Pasquim e que o livro se chama Clássicos de Mim Mesmo. Procede?

– Isso aí, saiu pela Matrix Editora. Esse meu brother escreveu mais de 500 crônicas e pro livro selecionou as 88 melhores e mais engraçadas. Prefácio de Luís Fernando Verissimo. Finérrimo!

Os dois criativos começam a acordar.

–  Verissimo é fera. De repente rola da gente, além do anúncio, pensar algumas ações de ativação?

– Claro, meu! – anima-se o DC – é o tipo de job que dá até pra inscrever em Cannes. Já pensou a gente ganhando um leão de ouro com essa porra?

Os três vão pegar mais café na copa. Levam os laptops. Começa o brainstorming.

–  E se a gente pegasse o Castelo, levasse pro Edifício Itália e fizesse ele pular, de bungee jumping, lá do último andar? Com o Clássicos de Mim Mesmo na mão? Quando ele pousasse na calçada começaria a tarde de autógrafos. Será que ele toparia?

– Aposto que sim – afirma o diretor de arte  –  escritor é mais louco que a gente, mano. Mas dava pra gente soltar mais a mão, coisa pra Cannes o sarrafo é mais alto.

Os três ficam uns 15 minutos em silêncio, matutando.

O redator manda uma ideia pra fora:

– Já sei! A gente arma o lançamento numa tribo do Xingu. Se ele conseguir explicar o conteúdo do livro pros índios, sem ser escalpelado, aparece, de repente, de trás de uma moita, o Gugu. E entrevista o Castelo, fala sobre a vida literária dele. Se liga no buzz que isso vai dar. Redes sociais bombando!

O diretor de criação interrompe a conversa:

– Irmãozinhos, na boa, piramos demais. Que tal criarmos só o anúncio? Texto na primeira pessoa, Carlos Castelo falando do novo livro, tipologia Bodoni, bem classuda e pronto.

O redator, decepcionado, desabafa:

– Ele, falando dele mesmo, num texto? Pô, cabotino pra cacete isso, não? Vou pegar mais um café…