“O cachorro é o melhor amigo da comida do homem.”
(Anônimo)

(Mircea Iancu por Pixabay)

O CONTROLE REMOTO ALEMÃO
O doutor Zaqueu, juiz federal aposentado, beirava os 70 e muitos quando uma intervenção nas partes baixas o fez perder as vontades em local delicadíssimo. Não fosse matrimoniado com uma senhora, por volta de 45 anos mais primaveril e na força das libinosidades, o resultado das práticas clínicas em suas glândulas seria de menor dano. Contudo, a cônjuge fazia questão que os namoramentos seguissem como antes do malfadado melindrismo genital.
Na pressão do momento, pediu imediatamente conselhos a seu operador. Este mostrou-lhe uma novidade recém-chegada da Alemanha, nada menos que uma prótese peniana automática.
– É coisa simplíssima: tem um controlezinho remoto. O doutor leva sempre consigo. Apertou, subiu – explicou o cirurgião.
Homem metódico, moldado na prática de anos de leis e acórdãos, o juiz obedeceu ao médico como um cão obedece aos que lhe dão Biscrok. Passou a andar com o controle remoto alemão no bolso, fizesse sol ou geasse.
Certa feita, numa festa de bufê em homenagem aos juízes mais destacados da década, Zaqueu subiu ao palanque, de discurso redigido, repassado e revisado. Ao chegar na metade do palavreamento, começou a sentir um repuxo nas partes seminais. Pior: as partes seminais deram para ir para frente e para o alto.
A professora-juíza-assistente Alcineide, ao notar a magnitude da corpulência sob as vestes do emérito bacharel teve um esmorecimento e despencou sobre as guirlandas da mesa 27.
Momentos depois ficou aclarado o lamentável obscurecimento na carreira do grande causídico: o decano magistrado Robledo também havia adquirido idêntico controle e, durante a longa arenga do colega, decidiu testar a eficácia do apetrecho. Infelizmente, deu-se a transferência de ondas eletromagnéticas de seu dispositivo à prótese de Zaqueu.
DESINFELICIDADE 
Alaor vivia um momento de desinfelicidade. A ex-amasiada, Clóris, o substituira nas cobertas por um colega seu de motocicletagem, como ele  entregador do iFood. Já era humihante ver Clóris na garupa de Jotair, ainda mais ser acapachado pelas mensagens do zap dela exigindo mundos e fundos. Especialmente fundos.
Clóris não assemelhava em nada com ex de motoboy, tinha mais parecença era com ex-patroa de artista do SBT: não queria pensão, queria hotel de cinco estrelas.
A situação desandava mais que tapioca afogueada em farinha pouca. E descambou de vez com a entrada nas comidas de um advogado de porta de colônia penal, o doutor Pessoti – contratado por Clóris com a clara prescrição de enloucar Alaor.
Quando a briga nupcial já transcorria ali pelo segundo ano, Alaor encontrou-se com uma camarada de firma de Clóris ao concluir uma entrega do iFood.
– Soubesses do cachorro com a tua mulher? – indagou a moça.
– Que cachorro, o Jotair? – disse ele.
– Não, moço, aquele cachorrão do seu Armindo, tio dela. Pois a Clóris não foi entrar na casa do parente, o bicho avançou e arrancou a língua dela! Tá mais calada que rato de igreja.
Alaor nem chegou a ter espantamento. Foi foi direto e reto ao mercadinho de seu Calixto. Comprou na mão do velho meio quilo de filé mignon e saiu, a jato, na moto. Foi bater na casa de Armindo. Quando percebeu a latomia da 125 cilindradas, o cachorro veio ladrando feito o cão. Alaor aprochegou-se do gradil, abriu o plástico com a carne de primeira pinicada e deixou o bicho sentir a fragranciosidade. Aí foi soltando os tecos, aos tiquinhos, e falando mole, numa voz de mel de tiúba:
– Coma, meu bichinho, coma…que não é todo dia que se arranja um amigo pra vingar as desgramas da gente…