Relatos da vida de um cativo.

(British Library)

§ Salve, cativos amigos!

Não há nada mais antissocial do que o isolamento social. Recebo mensagens de pessoas que acreditam que a mudança melhorou tudo, visto que podem ler, ver TV, organizar a casa, conviver com a família ou simplesmente meditar. Bom, pode até ser uma realidade para certos indivíduos, mas, para mim, não está sendo. A reclusão deve ser ótima a sós. Coletivamente, no entanto, traz uma série de inconvenientes.

Aqui em casa, nas primeiras horas do retiro ficamos todos bem animados. Principalmente por poder brincar de casinha. Mas, daí para frente, depois de algumas birras sobre filmes e comida, ficamos bicudos uns com os outros. A ponto de eu ter convidado o entregador do Rappi para entrar na cozinha e dividir a pizza comigo.

Em nosso cantinho ainda temos o agravante dos animais domésticos: uma gata, uma maltesa e um esquilo-da-Mongólia. Não se acalma esses bichos lhes colocando para assistir Pororo. Ainda mais o rato, de gênio forte, que se agita se não exibimos ‘O Pequeno Stuart Little’ no Netflix.

A maltesinha é outro problema, pois é sabidamente uma cadela de colo. Ao ver alguém sentado, ela simplesmente joga-se em cima. E é assim que venho trabalhando, em modo home office, com uma cachorra em cima da perna oito horas por dia.

Pelo que tenho acompanhado nos noticiários na web, dá para ver que saímos da condição de calamidade pública para a de hecatombe comunitária. Ainda bem que, nós, os brasileiros, estamos acostumados a tais situações. Brumadinho, por exemplo, está aí, até nas memórias mais esquecidas, para quem quiser recordar.

Analisando bem, o Brasil é uma nação fadada à falência desde sua inauguração. Aconteceram alguns períodos bons, como a Gripe Espanhola, mas não devemos contabilizar como tão positivo, devido ao curto espaço de duração.

Por isso, vamos seguir no hang out por algum tempo, com muita calma: hora dessas, nós saímos do desterro. Nem que seja pra ir ao PS mais próximo.

§ Encomendei umas garrafinhas de vinho pelo app. O motoqueiro, já um senhor rodado, chegou na hora aprazada. De cima da escadinha da garagem perguntei: – tem que assinar alguma coisa? Isso porque a compra já estava paga no cartão.

Ele falou, simpático: – tem não! Fiz uma pausa pra ver se o homem se dispunha a deixar a sacola encostada no portão. Depois eu pegava.

Mas ele, sempre sorrindo, afirmou: – pode vir, faço um bem bolado aqui e entrego pro senhor..

Não fui. E não é que o sujeito se ofendeu? Ficou resmungando no portão, as garrafas a tiracolo.

Com essa autoestima baixa quero ver como o brasileiro vai ficar na alta da curva viral.

§ LAMENTO EPIDÊMICO

Isolamento total
Que o mundo mandou pra mim
Um pária tu me tornaste
Hoje me sinto um babaca
Confinado feito vaca
Num tédio que não tem fim
Isolamento total
Que vidinha mais boçal
Não há paciência que baste
Prime Video que acuda
Nem mesmo Instagram me ajuda
Nesse tormento sem fim

No sofá estou largado
Mas eu já criei fraseado
Pra tanta prosa e canção
Só que o tal confinamento,
Meu prezado isolamento,
Tem me tirado a razão
Fiz muita poesia
Que até virou cantoria
E hoje o dia é assim:
Assistindo feito bobo
Tudo que passa na Globo
Logo eu vou comer capim.