“Então agora havia campos. Espaços amplos pra correr, pular, rolar na grama até, se fosse o caso.

As árvores são maioria nessa paisagem, como era lá no começo de tudo. Onde se tinha liberdade de ser mais animal e menos urbano, burguês, cosmopolita.

Eu corro naquele descampado. E, quando me canso, paro, me farto com um belo pedaço de carne. Carne mesmo, fresca, como deve ser. Não essa porcaria dos tempos atuais que nos servem embalada em papéis coloridos, cheios de slogans e posicionamentos estratégicos de marketing. Como se se deglutíssemos pacotes, não proteína.

De barriga forrada volto a me soltar na imensidão ensolarada atrás de um certo alguém. Sinto os seus sinais, sei que ela poderia até me desejar, caso eu desse um mínimo de sorte. Então poderíamos nos encontrar sem etiquetas ou convenções, papéis, carimbos, mensagens em juridiquês.

Um encontro ancestral. Com o objetivo de prover vida, dar continuidade à combinação de átomos que se formaram graças à seleção natural em nossos corpos. Simples assim. Como a natureza que, diferente de mim nesse gigantesco tapete verde, não dá saltos.

Agora me sinto como um morcego equipado com um sonar de precisão. Apesar de ter escurecido na entrada do bosque, eu posso vê-la. Ela jantou como eu. Está um breu, mas dá pra perceber os restos do seu piquenique na relva.

Pouco tempo depois viramos um só. A madrugada chega logo. Entramos na cabana de madeira forrada com um carpete quente e áspero.

Na manhã seguinte deixamos o lugar e, depois de caminhar um pouco, lado a lado, damos na cidade de postes. E debaixo de cada um deles um bebedouro.

É o lugar ideal pra se passar uns dias de romance. Pelo menos é o que planejamos fazer enquanto vamos, de poste em poste, brincando como se ainda não tivéssemos nenhuma responsabilidade na vida.

No fundo, eu ando  sentindo falta de uma cara metade. Sei que logo cada um vai voltar pras suas famílias e que estamos unidos apenas pelo fato de termos nos perdido. Ah, essas casualidades, sem nenhuma causalidade, são mesmo o tempero da existência.

Então, depois que tomo um gole de água num dos bebedouros, levanto a cabeça e vejo que ela não está mais ali. É um golpe. Busco-a por entre as ruas vazias, sem casas ou prédios. E noto que a cidade de postes é apenas um hiato entre um campo verde e outro.

Entro de novo no descampado com a mesma disposição anterior. E faço o que mais amo: corro, corro, corro. Sem estar preso a nada. Quem sabe mais lá pra frente, num outro bosque, eu encontre uma companheira a quem me deixaria prender numa coleira.”

(Então Bóris, nosso bulldog, acordou de seu último sonho. Bocejou longamente, espreguiçou-se, e foi tomar água no  bebedouro.)