O trabalho de Hermes fica a cerca de cinco quilômetros de casa. O de Dalva é no prédio ao lado do escritório dele. Todo dia útil, após um rápido desjejum, os dois vão juntos à labuta.

É um trajeto onde o casal vai sempre em silêncio. Uma ou outra observação sobre os chefes, mas nada fora do comum. Naquele dia, excepcionalmente, Dalva começou a perturbar o marido. Tudo porque ele resolvera adquirir uma bicicleta de três mil reais.

A ideia era aposentar o carro e aderir às ciclovias. Quando Hermes dizia isso, Dalva ficava tiririca. “Talvez fosse inteligente pensar assim morando em Amsterdam, em Paris, mas em São Paulo? Coisa de gente de miolo mole, afeito a modinhas”, estrebuchava a patroa.

(Bling-bling. Por causa da falação de Dalva, Hermes passou distraidamente pelo farol vermelho. Multa gravíssima.)

Uma das muitas justificativas de Hermes era que pedalar era bom pra saúde dele. Não trabalhavam tão longe assim de casa, era uma oportunidade dele queimar umas caloriazinhas, fazer o coração pegar uma musculatura. E tudo isso sem pagar academia.  Ao que Dalva contrapunha com o argumento de que, ao tomar uma chuvarada pela frente, o temporal faria tão mal a Hermes que não adiantaria toda ginástica do mundo pra compensar o estrago.

(Bling-bling. Hermes passou num local a 52 quilômetros por hora onde o permitido seria apenas 50. Multa média).

De mais a mais, defendia Dalva, era tudo fogo de palha de Hermes. Não dava uma semana pra ele encostar a bike em algum canto e querer recomprar um carro. E, como eles só sobem de preço nas lojas e concessionárias, ia ser mais um prejuízo a contabilizar na vida dos dois.

(Bling-bling. Hermes não sinalizou mudança de faixa. Multa grave).

“E sabe como é bicicleta, começou a vociferar Dalva, se você deixa mocozada vai estragando. Vão enferrujando aquelas pecinhas, catraquinhas, até ninguém mais querer. Nem dada. E os três paus que gastou-se na coisa vão pro lixo. Ninguém aqui está tão rico pra ficar lançando nota de cem pra galera.”

(Bling-bling. Hermes atendeu uma ligação do escritório no celular estando ao volante. Multa média)

Hermes acreditava que seria uma mudança de vida pra melhor. Já tinha tentado fazer a mesma coisa há três anos. Mas a cidade tinha pouquíssimas vias para bicis. Hoje a coisa é bem mais acessível aos do pedal. Dá pra ir da zona Oeste à Sul, da Norte à Leste, na boa. “De mais a mais, pega os IPVA’s, os licenciamentos, a manutenção dos automóveis. O que é isso perto de três barõezinhos numa bike animal, importada, linda como a Manuela?

(Bling-bling. Hermes pegou um trecho de autoestrada para cortar caminho até o escritório de Dalva e ultrapassou um veículo pelo acostamento. Multa grave).

Dar nome de mulher à bicicleta talvez fosse mais irritante para Dalva do que Hermes ter pago três mil nela. E a maneira licenciosa que o canastrão pronunciava aquele “Manuela”? Falava com tesão, uma cara nojenta, de calhorda”. Deu uma mãozada com força na cabeça do marido.

(Bling-bling. Hermes subiu na ciclovia e atropelou um ciclista. Multa gravíssima e apreensão da CNH).

Em tempo: durante o percurso residência-escritório, o total de multas de Hermes saiu 190 reais mais caro que a Manuela.