Sobre a imperfeição.

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Foto: Carlos Castelo

“Perfeita”, pensou ao vê-la entrando no Pasquale, correndo da chuva, com um embrulhinho nas mãos.

Cabelos negros caindo sobre as saboneteiras talhadas a cinzel, pele morena, sorriso blasé e um corpo aparentemente comum. Só aparentemente. Os dias na pousada em Paraty, durante a FLIP, desmentiram a hipótese de que sob aqueles panos elegantes havia uma obviedade física.

Esqueceram as palestras e saíram do quarto apenas uma vez para experimentar as lulas do Hiltinho. O resto foi um êxtase só, temperado pelo som da tv ligada baixinho na HBO.

O Pasquale era para comemorar uma semana de conhecimento. “Logo eu levando em conta datas colegiais– sete dias de namoro! – um quarentão se dando ao trabalho de festejar uma besteira dessas”, refletiu.

Mas ela…

Sentaram-se.

“Um vinho? Será que ela curte?” – foi o segundo pensamento da noite à meia luz.

– Tem italianos legais aqui, vi ali na geladeirinha – sugeriu.

– Da Puglia? – ela adjetivou.

“Meu Deus! Mulher que conhece vinho da Puglia só perde pras cervejeiras.”

– Eu, por mim, tomava uma “stout”, mas aqui eles não servem cerveja em copo, né? – a  diva adiantou.

Biscoitinho fino. Parecia que ela lia pensamento. Agora era o lance da cerveja. “E quando faz esse muxoxo com a boca, me deixa louco”.

– Não sabia que você conhecia cerveja neste nível.

– Eu gosto, mas eles ainda não tiram aqui como nos pubs lá de fora. É uma questão de mão do barman.

Ele resolveu dar o presente antes dela oferecer o seu. Um prato muito elegante que achara numa lojinha de design. Nele havia inscrita, em letras pretas, uma frase de Oscar Wilde: “as mulheres foram feitas para serem amadas, não para serem compreendidas”.

Ela beijou a borda do presente deixando uma marca de batom torta.

“O que será o meu? Um disco do Seu Jorge? Não me decepciona” – disse ele, zombeteiro. E foi abrindo o pacote, as mãos trêmulas.

Era um exemplar raro do “Soldiers’ Pay”, do Faulkner.

– Pô, você adivinha! Eu queria tanto retomar a leitura desse maluco maravilhoso pelo primeiro livro. E não sabia de uma versão em português.

– Você tava meio altinho lá em Paraty e comentou. Esqueceu?

– Adoro Faulkner…

– Ah, pra mim só tem uma coisa melhor: Montaigne – ela sentenciou.

“Não é possível que ela conhece o capítulo sobre Demócrito e Heráclito…”.

– Li o “Cartas Exemplares”, do Flaubert…

“Ufa, ia ser perfeita demais se dissesse uma coisa assim”.

– … lá ele menciona o capítulo sobre Demócrito e Heráclito. Pirei quando li depois…

Beijaram-se. Antes do prato quente, a impecabilidade foi ao toalete.

Demorou a voltar.

Inquieto, ele apanhou o celular no bolso do paletó. Foi quando ela voltou do nada e começou a gritar com ele:

– EU NOTEI MUITO BEM VOCÊ FALANDO COM A OUTRA! OUVI A VOZ DELA NO CELULAR!!!

E saiu abrindo o berreiro, sem dar direito de resposta, o restaurante inteiro olhando a cena passional.

É, o ciúme era o calcanhar-de-aquiles dela. Todo mundo tem o seu, era perfeita demais pra ser verdade.

Mas o mais cruel de tudo foi a voz de mulher no celular. Não era da outra, que nem outra ele não tinha.

Era a da secretária eletrônica da Vivo.