– E então, já sabe que prato vai pedir?

– Eu vou dar uma olhada no cardápio, mas antes queria te falar uma coisa. A gente se conhece faz pouco tempo, talvez fosse legal ir te dando uns toques de como estão algumas coisitas na minha vida. Hoje, por exemplo, me deu uma falta de ar inexplicável. Estou separada do Ari faz seis meses, desde então tem sido uma benção pra mim a liberdade. Foi isto o que permitiu ter te achado naquela baladinha e a gente poder vir celebrar a vida aqui. Só que hoje me bateu uma sensação estranha, um peso no peito, aquela falta de ar chata. Achei até que estivesse começando a ficar deprimida. Só não tive 100% de certeza porque acordei legal, não tive dificuldade de botar a roupa e tocar a minha vida. E, claro, estou tomando a Fluoxetina certinho. Daí me veio a impressão de que pudesse ser o luto. Ou a falta dele. Com tão pouco tempo separada é provável que esse não fosse o melhor momento de haver uma troca com você. Não me refiro à troca física. Desde cedo aprendi a separar sexo de amor. Mas acho que o apagão que me deu hoje tenha sido uma pressa em me encantar por alguém. Por outro lado, também pode ser que isso tudo não tenha nada a ver com o Ari. Aliás, entre ele e você – preciso te dar essa satisfação – teve o lance com o Fabinho e o Ramiro. Nós três sabíamos que aquilo não teria futuro. A sociedade meio que ainda castra formas de afetividade que não sigam o modelo familiar, de casal. E os triângulos, todo mundo sabe desde que Carmem é Carmem, que super geram desconfortos emocionais. Foi então que pedi um ‘help’ pra Flavinha, ela sempre teve esse papel de ‘gurua’ pra mim. Acabou que o Ramiro se encantou por ela, a Flavinha de feia também não tem nada. Ficamos os quatro fazendo uma espécie de rodízio. E você surgiu justamente quando o Fabinho saiu fora, foi promovido a sócio do escritório, pirou e tudo o mais. Por isso achei que talvez fosse bacana tocar no assunto com você. inclusive porque estamos saindo há mais de três meses e a triangulação do Ramiro, minha e da Flavinha continua ativa. Não com a intensidade diária que rolava antes, mas todas as segundas, quarta e sextas – quando não estou com você, é claro. Também acho bacana falar que não curto esportes. Eu sei, você ama, é um superatleta maravilhoso. Mas o lance da gente dar aquela pedalada toda madrugadinha na ciclofaixa está me destruindo. Na verdade sou uma sedentária de marca maior. Pior: eu fumo. Um maço e meio por dia, fora as tragadas que dou no dos outros. E sou presidenta de honra do Clube do Charuto da Vila Mariana. Era só isso que queria te falar. Vou querer o entrecôte, do ponto pra mal, puxado no molho de toucinho e fritas. Falei que era vegana, mas foi só pra te agradar. Agora, um suquinho de tangerina eu tomo, bem gelado e com bastante açúcar. Ah, se importa se antes de chegar a comida eu der umas baforadas num Montecristo na calçada?