A história de uma parka inglesa.

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Foto: Carlos Castelo

Botas, eu coleciono desde que me entendo por gente. Agora, jaquetas estilosas é mais recente.

Tudo começou quando vi uma das últimas fotos de John Lennon, em 1980, envergando um capote de couro marrom. A matéria falava da alegria dele de posar para o fotógrafo com uma peça novinha em folha. Comoveu.

Comprei uma série de casacos semelhantes àquele durante um bom tempo. Os iniciais nem eram de couro, eu não dispunha de patrimônio pra investir nem em paletó de courvin. Ainda assim todos tinham atitude.

Nos anos 1970 abusei dos blusões militares. Tenho até hoje um do exército inglês meio puído. Depois vieram as jaquetas de indigo blue, originais ou customizadas.

Mas a minha primeira peça, realmente de categoria John Lennon de qualidade, foi uma Nevada Cuir adquirida no shopping Les Halles, de Paris, em 1998.

De couro bem grosso, cortada em estilo aviador e com botões prensados em aço, ela foi a primeira grande paixão.

Vive no meu closet há 18 anos e continuo recebendo elogios ao usá-la.

Cinco anos depois da minha ida ao Les Halles visitei Londres. Fui até Camden Town, é claro. Um lugar frequentado por Amy Winehouse não pode passar em branco.

Depois de reconhecer o território, comer uma pratada de fish and chips escoltada por um bom copo de Guiness, sai flanando pelo comércio local.

Há loja de tudo em Camden Town, de manufaturados à base de marijuana a produtos para mágicos profissionais.

Como era dezembro, e o frio estava pau a pau com o de São Paulo em junho, me enfiei numa galeria com aquecimento. O lugar parecia ainda mais exótico que as ruas. Sex-shops e tatuadores misturavam-se, na maior sem-cerimônia, a tendinhas de comida étnica de todas as partes do mundo, menos do Brasil.

Quanto mais percorria o lugar, mais radicalizavam-se os hábitos e costumes.

Bem no miolo do edifício dei com a loja de roupas militares. Creio que nem na Guerra do Golfo viu-se tanto pano camuflado junto ocupando um mesmo espaço.

É evidente que logo corri para o setor de jaquetas. Fui ficando cada vez mais inebriado com o que manuseava. Quando cheguei ao fundo daquela caverna fashion achei que daria de cara com coronel Kurtz, recém-saído das matas do Camboja e refugiado ali no meio das prateleiras.

No final acabei encontrando a parka perfeita: preta, com cinto interno para moldá-la à cintura e bolsos e mais bolsos.

Experimentei o tamanho médio, serviu como uma luva. Já vesti no metrô de volta ao hotel.

Dois anos atrás senti falta dela no armário. Sai buscando-a como se tivesse perdido um filho no meio da multidão. Olhei dentro de gavetas, em cestos de lavanderia, sacos de lixo, debaixo de camas e escadas. Numa segunda incursão procurei em casa de irmãos, tios, sobrinhos, primos.

Nenhum sinal.

Por último perdi a vergonha e fiz um post no Facebook. O resultado foi irrisão e ironia em cima do meu desespero. Fora a polarização nos comentários (“militarista reaça / che guevarista porco”).

Finalmente lembrei-me que poderia tê-la deixado sozinha no porta-malas do carro num estacionamento do Centrão…

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Londres, 2015. Desço do táxi em frente à galeria fashion de Camden. Dessa vez vou direto à loja de roupas militares. De longe vejo numa arara a mesmíssima parka preta, com cinto interno e muitos bolsos. Ignorando tudo em volta, abro os botões e vejo uma letra “M” na etiqueta. Vou vestindo-a e saio andando. Os vendedores indianos vêm atrás de mim, tentam me tomar o produto. Minha mulher se interpõe, paga a mercadoria em notas de libra esterlina.

No dia seguinte retornamos a Paris. Tinha sido apenas uma escala técnica na Inglaterra para reaver um antigo amor.