Não é que eu seja contra o incremento da construção civil no país.  É claro que sei da importância macroeconômica dela. Tá certo, você vai me dizer: erigiu-se uma capital federal inteira e o evento afundou o Brasil. Há realmente quem veja assim o levantamento de Brasília. Mas, sejamos justos, não dá para afirmar que as grandes obras são desprezíveis para o PIB.

Agora, coloque uma reforma de grandes proporções ao lado de seu lar, e me diga se ainda continuará com essa compreensão toda.

Em nosso caso específico estamos com as dores, as preocupações, o pó e especialmente a zoada de uma construção há mais de três meses ao lado de nossa residência. Vale dizer que moramos numa ruazinha de bairro e que os sobrados são quase todos geminados. O que equivale a ter a quebradeira de quatro pedreiros literalmente dentro de nossos aposentos.

O que causa espécie é que, pelo que já se arrebentou de paredes, vigas e canos, teria sido mais razoável vender o imóvel e comprar outro novo em folha no mesmo bairro. Os primeiros 60 dias de reparos foram exclusivamente para pelar a morada. Não há mais beirais, corredores, varanda, garagem, churrasqueira, nada. Até a casinha do poodle foi demolida. O bicho, coitado, anda mais perdido que cachorro em dia de reforma.

A esposa me falou que talvez seja ignorância arquitetônica minha em relação a um projeto minimalista que o vizinho deseja executar. Pode até ser, mas o minimalismo dele maximiza o meu estresse.  Sem contar que, por causa de uma sapata defeituosa que sustenta o domicílio, o cronograma da edificação será alterado.  É, vamos carecer de ainda mais paciência.

Serão, no mínimo, mais dois meses de conversação diária dos operários direto em meus ouvidos.

Não sou insensível, entendo que é preciso haver pausas para um papo restaurador durante qualquer tipo de atividade profissional. Contudo, na função de pedreiro, o buraco na parede é mais embaixo. Não dá para o cidadão operar uma escavadeira e dialogar com o colega ao lado – que está raspando o sinteko – no tom de voz do João Gilberto.

No momento em que batuco estas linhas em meu computador, totalmente empoeirado, ouço algo assim:

–  Josiel, Josieeeel! Me passa a serrinhaaaaaaaaa!

(Forte ruído de betoneira girando).

– Tá na mãoooooo!

(Ruído ensurdecedor de Makita na laje).

– E o teu Porco, hein?

(Marteladas).

– Ah, não vou nem falar de futebol porque com roubalheira de juiz não tem papo. Enquanto tiver isso aí em jogo, não comento nada não.

(Som de um grifo caindo no chão).

– Pega esse grifo aí, Josiel.

– Pega ocê, rapaz, que folga é essa comigo?

–  Tô dependurado e mandei pegar.

–  Mandei?

–  É isso mesmo. Fui eu quem te botou nessa parada, irmão. Te trago na garupa da moto todo dia. Nem concretar sapata ocê sabia, tá aprendendo aqui às minhas custas. Mandei pegar o grifo, sim! Ocê vai baixar e catar ele aí, ah, vai…

– Ó, Alencar, tu quer saber duma coisa? Vai pra…

(Grande estrondo de caixa de ferramentas chocando-se contra andaime etc etc).