J. chegou ao Departamento de Análises Bufas e Cômicas – DABUCOM – no comecinho da manhã. A fila já dava voltas no quarteirão. Pegou uma senha, tomou café na padaria da esquina e ficou por ali zanzando até ser chamado. Aproveitou o momento para trocar uma ideia com os colegas de ofício, mas o papo não se alterava, sempre girava em torno das dificuldades de atuar no setor ou o falecimento inesperado de algum humorista veterano.

Depois de quatro horas na calçada sob um sol fervilhante, um servidor público berrou o número de sua senha.

Ele despediu-se dos companheiros e entrou numa espécie de rol onde havia mais uma centena de bufões aguardando a vez. Uma senhora lotada no DABUCOM, bastante ríspida, o informou que ali todos seriam chamados nominalmente  Duas horas depois um chefete de repartição gritou seu nome.

Após preencher cadastro com número do SUS, endereço, RG e CPF, lhe perguntaram qual a razão de sua vinda.

“Queria registrar uma piada em meu nome” – explicou.

O supervisor coçou a cabeça demonstrando enfado. Indagou:

“Trouxe três vias da piada impressas em papel A4, letra Boldoni 72 Book, corpo 18?

J. confirmou que sim. O homenzinho fez novamente a cara de cansaço crônico e pediu que J. lhe passasse os papéis. O humorista obedeceu. Ele aí apanhou um enorme carimbo e bateu ruidosamente nas folhas.

“Está oficializada a entrega. Agora o senhor entra naquela fila à esquerda e aguarda que o chamem para a análise verbal da anedota” – sentenciou o barnabé.

J. fez uma cara de quem não entendera e o homenzinho, quase explodindo de raiva, clarificou:

“O senhor vai contar sua piada, de viva voz, a um fiscal do Departamento. Ele vai ouvi-la e registrá-la em vídeo. Só depois disso é que poderemos dar andamento ao laudo para a aprovação ou não do chiste”.

Mais algumas horas e J. estava diante do outro fiscal.

“Conte a piada” – mandou o homem.

J. deu um pigarro e começou:

“Uma senhora idosa foi ao médico. Lá chegando o doutor disse a ela: ‘tenho uma notícia boa e uma ruim, qual a senhora quer ouvir primeiro? A idosa preferiu saber a notícia boa. O médico então falou: ‘a senhora tem 24 horas de vida’. A mulher se assustou e perguntou: ‘meu Deus, mas e a ruim?’ O médico afirmou: ‘tentei avisar a senhora ontem e não a encontrei’. “

O fiscal gravou com uma câmera J. dando o texto. Depois falou:

“A sua piada vai ser exibida a um júri popular. O resultado sai em 15 dias úteis. O senhor receberá a decisão em casa, via Correios.”

Chegou dentro do prazo um envelope na residência de J. Ele o abriu, ansioso, e pode ler em letras miúdas:

“Seu chiste de número 10137B56 foi considerado – pelo Estatuto da Anedota, artigo 137, inciso 42-B – inadequado para registro e exibição pública. O conteúdo foi visto como descarado, petulante e ofensivo à categoria médica. Coloca ainda a mulher idosa numa posição inferiorizada diante do macho de formação acadêmica superior. O senhor tem 90 dias úteis para retirar seu vídeo com o registro da peça na sede da DEBUCOM ou o mesmo será incinerado.”

Depois da leitura, J. rasgou tudo em pedacinhos e lançou na lixeira.

“Parece piada…” – disse de si para si.