Encontrei na biblioteca do meu pai, por acaso, um livro de Nelson Rodrigues.

 

(Arquivo Nacional – Min. da Justiça)

 

1. Eu era bem novo, pequenino e cabeçudo como um anão de Velázquez. Encontrei na biblioteca do meu pai, por acaso, A Menina sem Estrela, de Nelson Rodrigues. A leitura coincidiu com a primeira vez que vi uma mulher nua. Foi de um assombro ululante. A garota era filha de uma senhora, casadíssima, que a vizinhança da rua Engenheiro Francisco Azevedo jurava que traía o marido.

2. O esposo da tordilha possuía um nariz brutal. Era o Cyrano de Bergerac do Sumarezinho. Supunham que a mulher o enganava justamente por ele ser dono de narinas quase imorais. As senhoras, gordas e machadianas do bairro, alardeavam essas teses. Nossa vizinha de porta prometia que, caso um dia olhasse para o cadáver da “sem-vergonha”, cuspiria sobre seu túmulo.

3. Foi quando vi a moça nua. Caía a noitinha, eu voltava da lanchonete Mic Mac, onde tinha jantado o meu hot-dog com grapete. Descendo a rua, vindo da Heitor Penteado, passei em frente ao sobrado. A janela do quarto estava bem iluminada, era natural que olhasse naquela direção.

4. A moça se apresentou, inteira, em sua indecorosidade. Parecia olhar para mim. Mas sem me olhar. Foram momentos confusos, brevíssimos. Cheio de pavor e vergonha, saí correndo ladeira abaixo. Como é triste o nu que ninguém pediu, que ninguém quer ver, que não espanta ninguém.

5. Nessa noite sonhei que estava morto. Jazia num caixão com o livro O óbvio ululante sobre o peito. A moça, continuava em sua nudez, coberta apenas por um véu negro, vaporoso. Chorava como louca, consolada pela tordilha e por Cyrano. A morte é um grande despertar.

6. Saltei da cama transpirando. Durante o dia, só de pensar no meu velório, e do pranto convulsivo da moça em panos tão diáfanos, mergulhava na delícia dos caldeirões ferventes. Um suor, grosso e elástico, dos cavalos, se alastrava por todo meu corpo.

7. Estava lendo A Cabra Vadia no canapé da sala. De vez em quando mirava a escarradeira de cerâmica decorada. Olhar para aquele objeto me levava aos tempos da avó, de sua bronquite, seguida de tuberculose. Foi quando a vizinha de porta gritou: “Jesus, a mulher do venta de bezerro morreu!”.

8. Nunca se soube a causa do desfecho. As faladeiras, cheias de varizes cobertas de gaze, aventaram a hipótese de que o pulha descobrira o adultério e obrigara a esposa a beber corrosivo. Foi encontrada uma taça, com os restos do veneno, caída sobre o kilim.

9. O enterro foi uma solenidade. O cortejo desceu a rua, pungente. Entrou pela Pompeia, subiu em direção à Doutor Arnaldo. A moça, tão diferente do meu sonho, caminhava bem composta e silenciosa. Já o enganado comportou-se feito um desenganado. Foram preciso três meganhas e um coveiro o contendo, para que não se enterrasse junto à infiel.

10. Anos mais tarde, me encontrava num café, na São Luís. Finalmente chegara ao fim das crônicas de Nelson Rodrigues com O Reacionário. Ao fechar o livro, notei a moça no ambiente esfumaçado. Tornara-se uma balzaquiana… Como num filme de Charles Chaplin, cega, vendia flores aos fregueses. Veio até minha mesa, espichou uma rosa flácida e ficou me olhando. Agora, certamente sem me ver.