Teria sido apenas um pesadelo kafkiano?

(Jan Marczuk por Pixabay)

 

Numa manhã, ao despertar de sonhos febris, Greguinaldo deu por si na cama transformado num oficial da SS. Estava deitado sobre o dorso. Seu uniforme tão bem-passado que parecia revestido de metal. Ao levantar a cabeça divisou a faixa sobre o ventre. Ao lado, as medalhas de cruz maltina e as conquistadas por bravura no campo de batalha.

“O que me aconteceu?” – pensou. Não era um sonho. O quarto de sua casa, bastante acanhado, estava ali, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram tão familiares.

Por cima da mesa, onde estava deitado, desembrulhada e em completa desordem, uma série de amostras de roupas: uma jaqueta preta com suas divisas, camisas branquíssimas, calças de culote, uma bota de montaria e o chicote.

Na cômoda, reluzia uma pistola Luger, com abafador de ruído na ponta do cano, e uma cartucheira de balas prateadas.

Levantou-se, mirou-se no espelho e não acreditou no que viu. Como ele, até a poucas horas atrás, um motorista de Uber, podia ter se transmutado “naquilo”?

Tudo bem, era reacionário, tinha posições políticas de extrema-direita e, durante as últimas eleições, brigara com os familiares a ponto de cortarem relações. Contudo, envergar aquela farda e ter uma pistola a seu lado era algo inimaginável.

Abriu a cortina e, para aumentar seu pasmo, reparou que na calçada não estava estacionado seu Fiat Uno branco, mas um Mercedes-Benz, 1941, preto. Era um modelo exclusivíssimo. Tinha bandeirinhas nas laterais, ornadas por águias, um veículo daqueles usado apenas por líderes do naipe de Himmler, Speer, Goebels e o Führer.

Greguinaldo decidiu tomar seu desjejum, quem sabe não o ajudaria a sair daquele transe matinal? Qual não foi sua surpresa ao ver a mulher e a filhinha vestidas com trajes tipicamente germânicos: cabelos com flores campestres presas ao coque, camisas bufantes apertadas por uma jaqueta justa, saias pespontadas. Ao notá-lo, a esposa anunciou que havia salsichas com chucrute para o café:

Guten Morgen! Ich habe Würstchen mit Sauerkraut zum Frühstück gekocht.

Estavam falando alemão com ele, mas como assim? Eram todos brasileiros naquela casa…

Protestou, dizendo que era um absurdo, mas o que saiu de sua garganta foi que adorava salsichas logo cedinho – na língua de Goethe.

Wunderbar! Ich esse sehr gern Würstchen zum Frühstück!

Ao ver que não havia remédio, decidiu remediar. Comeu as frankfurter com calma, o café sorveu em silêncio. Em seguida levantou-se, despediu-se dos familiares e saiu.

Na calçada respirou fundo e pensou: sim, talvez fosse melhor aceitar a nova natureza. Se até a filha virara “aquilo”, por que não ele?

Antes de entrar na reluzente Mercedes 1941, chicoteou o mendigo que dormia em frente à sua casa.