Desde quando existem coachs de redação criativa?

(Arte: British Library)

Trabalho há mais de 30 anos com palavras e uma curiosidade sempre me acompanhou: como teriam sido as primeiras aulas de redação criativa da humanidade?

As narrativas sempre acompanharam o Homem. Toda vez que se fala disso, já vem alguém lembrando das conversas à beira da fogueira, os neanderthais contando aos seus companheiros como foi caçar aquele mamute etc.

Acontece que os tais papos à margem do fogo crepitante foram se sofisticando. É claro que nenhum homem primitivo usaria a expressão “fogo crepitante” na aurora dos tempos, mas as descrições decerto foram melhorando. E isto só aconteceu porque algum brucutu mais afeito ao storytelling ensinou técnicas a seus semelhantes.

Terminei recentemente uma tese na cadeira de História da Cultura. Levei nove anos pesquisando sobre o surgimento das aulas de escrita criativa no mundo antigo e, antes de ser sabatinado por uma banca, dividirei-as agora com meus leitores.

O primeiro workshop conhecido teve lugar onde hoje localiza-se o Sudão do Sul. Ali, no interior de cavernas quase impenetráveis, foram descobertas as garatujas de uma aula-master sobre prosa inovadora pré-histórica.

Tudo ficou preservado nas paredes rochosas. Um dos colóquios versava sobre como desenvolver um conto oral que exprimisse o sentimento de impotência do hominídeo frente à indelicadeza de um cotidiano estressante. Um dia a dia que o impelia a sair de casa e defrontar-se com animais terríveis. Através de desenhos coloridos na pedra, o bruto-mestre estimulava seus alunos a imprimir emotividade aos relatos de fogueira. O orientador de minha tese, que esteve numa dessas cavernas, acredita que o pós-modernismo tenha surgido ali, em plena pré-história.

Ele chegou a fazer traduções dos rabiscos para conceitos verbais. Um trecho ficou assim:

“Urso mau pega homem. Homem pega lança. Lança a lança. Urso ferido. E a tríade, que determinou o signo pode ser considerada uma simples interpretação particular icônica, mas aparece no ato interpretativo, como o próprio objeto.”

Como pode-se notar, a ideia de que o homem primitivo era um tosqueirão não passa de fake news.

Pulando das savanas sudanesas para o Antigo Egito encontraremos os primórdios da poesia concreta. Os egípcios, ao contrário do que se imagina, possuíam um alfabeto organizado com letras e sinais. Contudo, quando redigiam criativamente no interior das pirâmides, usavam aquelas pinturas e esculturas de animais para produzir prosa poética à maneira dos Irmãos Campos. E isso tudo foi-lhes passado através de aulas, obviamente.

Outra especialidade egípcia eram os perfis, mas falarei sobre jornalismo literário, às margens do Nilo, em outra ocasião.

Na Jerusalém da época de Cristo, já podemos notar a presença de franquias de escolas de escrita criativa. Todas foram uma iniciativa de Nimrod, o célebre construtor da Torre de Babel, numa tentativa de voltar à uma língua universal. Deus não curtia a prepotência do empreiteiro, derrubou a Torre e as escolas faliram. No entanto, o aprendizado daqueles alunos levou-os a usar seus conhecimentos na escrita da Bíblia, o primeiro e único roteiro de série com mais de 100 mil episódios.

No ano passado iniciei minha pesquisa sobre o ensino de escrita criativa no Brasil. Ainda não foram encontrados vestígios de escrita, muito menos de criatividade.