“O diabo pode citar as Escrituras quando isso lhe convém”.

(William Shakespeare)

(Capa de Paulo Caruso e Marcelo Maia)

Uma prática que acho das mais antiéticas é um autor falar de si através dos livros que lança. E, se esse escritor tem coluna num blog prestigiado e, ao sair uma obra sua, prepara uma resenha…bem, aí é ainda pior. Trata-se de um autoelogio que beira a calhordice, a patifaria.

Suponham que eu, que faço posts aqui há mais de cinco anos, me aproveitasse deste espaço e divulgasse:

Carlos Castelo acaba de lançar seu 12º livro, agora pela editora e-Galáxia: “Crônica por quilo”.

Sim, e ainda colocasse o link da página de compra do e-book.  Com mais dados, preço, plataformas disponíveis para obtê-lo? Seria íntegro de minha parte?

E se, não satisfeito, eu acrescentasse longas informações adicionais que levassem os leitores a quererem adquirir meu trabalho – que, aliás, tem uma encantadora capa criada especialmente pelo cartunista Paulo Caruso?

Informações oportunistas de release, por exemplo, como as que vemos abaixo:

Carlos Castelo começou a produzir crônicas profissionalmente no jornal O Estado de São Paulo, no final dos anos 1980. Escrevia às sextas, na coluna Antena, ao lado de Carlos Drummond de Andrade, Caio Fernando Abreu e Fernando Sabino. “Eu era o café com leite do time”, costuma dizer. No dia 23 de junho de 2014, agora mais experimentado, reestreou com a coluna Crônica por Quilo mandando logo para o gol um provocativo texto: “12 coisas para se fazer caso o Brasil saia da Copa”. Seria uma quase profecia do aviltante 7 x 1 contra a Alemanha. De lá para cá, saíram do forno 270 crônicas, divididas nos temas mais diversos. Sátira política, crítica aos costumes, paródias, microrrelatos, poesia engraçada, aforismos, contos surreais, ficção científica de humor, personagens improváveis. Tudo a serviço da avacalhação ampla, geral e irrestrita; já que, “quando não se pode construir nada de bom, o que nos resta é esculhambar”, defende o cronista. Sobre Carlos Castelo, que também foi fundador do grupo musical Língua de Trapo, pouco se sabe. E, dizem, ele aprecia isso. Luis Fernando Verissimo assevera que trata-se de uma raridade no panorama da crônica brasileira. Ruy Castro costuma dizer que, quando quer rir e se irritar, lê uma máxima de Castelo. E o crítico literário Manuel da Costa Pinto o coloca no mesmo rol de Millôr Fernandes e Verissimo, pelo “faro para o cômico e para as contradições do presente – satirizados na linguagem do presente”. Confira nessa insólita reunião de 88 crônicas se o que atestam sobre Castelo é verdade. Nos tempos de hoje, mesmo com tantas louvações, nunca se sabe o que é real e o que é Fake News.

Creio que agir assim seria algo oposto à moral e indigno de um escritor, não  acham? Ainda bem que, afora textos de humor e/ou comportamentais, meus leitores nunca encontrarão esse tipo de autopropaganda cínica aqui.

Em tempo: acabei lendo, por acaso, o mencionado “Crônica por quilo” e recomendo. Ótima seleção de crônicas.