Pouquíssimos lugares do planeta têm uma enormidade de terra assim.

(The Graphics Fairy)

– Olha só essa imensidão, filho. Vê o mar, as matas, as montanhas em volta, o enorme descampado, cheio de flores, emoldurando tudo. Maior que isso só o nosso céu de anil. Não é uma maravilha?

– É demais.

– Pouquíssimos lugares do planeta têm uma enormidade de terra assim. E, ainda por cima, uma beleza de encher os olhos da gente.

– Verdade.

– Por isso, a gente precisa dar valor ao que tem. Porque é único.

– Só no Brasil, não é, pai?

– Só no Brasil, filho.

– Pai, me diz uma coisa?

– Claro, fala…

– Por que o Brasil é tão grande e só tem 1.500 habitantes?

– Hummm, é uma longa história, coisa de dois séculos atrás…

– Tudo bem, a gente não está de férias? Pode contar…

– Bom, foi mais ou menos o seguinte. Houve um antigo líder que liberou as armas de fogo para o povo daquele tempo.

– Armas de fogo? O quê é isso?

– Era um objeto feito para tirar vida. Mas, naquele momento histórico, eles achavam que era legítima defesa, um direito de cada um não ser atacado, entende?

– Sim.

– Bem, começou com os antigos podendo ter esses artefatos de tirar vida em suas residências, só que guardados num cofre. Depois, veio mais liberação, nossos ancestrais agora podiam andar na rua com os artefatos no bolso. E não parou aí: podiam ter objetos de tirar vida cada vez maiores e mais potentes.

– Nossa! E o que aconteceu?

– O esperado, um verdadeiro tiroteio que durou muitas décadas. O curioso é que acabou perdendo mais a vida quem não sabia mexer nos objetos letais, sabe?

– É?

– É, filho, eles iam se defender de quem chegava com um berro – era assim que chamavam as armas de fogo – e acabavam acertando neles mesmos um objeto chamado bala.

– De chupar?

– Não, de tirar vida. Essas balas pegavam neles, não em quem os atacava.

– Uia! Conta mais!

– Ok, mas já está escurecendo e precisamos voltar para a pousada, filho.

– Só mais um pouco, vai?

– Tá bom. Foi então que, por causa de opiniões sobre política diferentes, metade do país enfrentou a outra metade com aqueles objetos de tirar vida.

– E daí?

– Foi uma tragédia enorme. Só sobraram 20 pessoas. E, agora, 200 anos depois, foi que nós conseguimos chegar à população que temos.

– Ah, agora captei, pai. Obrigado!

– Ainda bem que hoje não tem mais armas no Brasil!

– É, mas o que é aquilo na mão do cara que vem vindo na nossa direção?

– Bosta, começou tudo de novo, é um assalto! Depois te explico o que é, se tiver depois… Mas nada de reagir, viu?