Tire a chupeta pra falar, menino! Esta frase pula de geração em geração e parece que algo de verdade ela carrega, senão teria caído no esquecimento.

Mas por que será?

Nos textos anteriores neste mesmo blog sobre chupeta e mamadeira ficou claro que estava em jogo, para a retirada destes hábitos, uma aposta dos pais no crescimento de seu filho. Assim, neste crescimento entra em cena a grande passagem desta transformação de um bebê em criança: começa a falar. Retirar a chupeta, deixar a fralda, largar a mamadeira: eis aí o que uma criança falante pode fazer sozinha.
Mas, como chegamos até este momento que tanto queremos: ouvir a voz do nosso filho pela primeira vez?
Aqui também parece que a varinha de Harry Potter precisa entrar em ação: este bebezinho que só chorava, dormia, mamava… começa a falar! O prazer de ouvir a voz do nosso filho é inesquecível.
Mas, para tanto, trabalhamos duro!
Para falar é necessário uma boa condição orgânica: é preciso ter uma audição normal (e hoje já saímos da maternidade com o resultado do teste da orelhinha), boa formação de palato (céu da boca), musculatura adequada – pois nossa língua, que se movimenta tanto quando falamos, depende desta força muscular-, nenhum problema neurológico diagnosticado nos primeiros meses de vida. Enfim, é importante a garantia de que o corpinho do nosso bebê esteja íntegro.
Mas há um trabalho que precisa também ser feito e que os pais exercem com maestria: desde o primeiro momento em que o olhar do bebê cruza com o olhar de seu pai e de sua mãe acontece um diálogo sem palavras, ou apenas com a palavra articulada do adulto.
“Ai que lindo, parece que está rindo pra gente”, “Gostou do seu colo”, “Está bravo porque eu estou demorando para amamentar”, “ Ah, quer mais?” Temos inúmeros exemplos do dia a dia em que imaginamos e emprestamos à criança nossa fala. Esta maneira que as mães têm de falar espontaneamente com o seu bebê é conhecida como manhês.
Cada movimento do bebê, cada reflexo, cada choro é transformado em palavra pelo adulto. Emprestamos para o bebê nosso imaginário e nossas atribuições simbólicas e nos servimos deles também para poder compreender aquele silêncio inicial do bebê.
Talvez seja esse diálogo que os pais sustentam com o bebê, supondo-o como um interlocutora partir de suas produções mais iniciais, gestos, balbucios, que transforma esse pequenino em pessoa.
O tempo vai passando e o bebê vai descobrindo também que pode brincar com os sons e começa a balbuciar. Em qualquer língua ele produz os primeiro sons de maneira muito parecida: mmmm // pppp e , mais uma vez, nossa loucura necessária comparece e afirmamos que estes grunhidos querem dizer “ mamãe” ou” papai” e até brigamos, pois disputamos, do lugar de pais, o significado da primeira palavra que nosso filho falou.
Lembro aqui da frustração de um casal de amigos quando o filho pronúncia sua primeira palavra – COCA. O quanto brincaram com esta fala e o quanto, nós, os amigos rimos dessa situação. Mas, mesmo aqui, há o reconhecimento de um som que o bebê emitiu que talvez nada tivesse com a articulação da palavra COCA, mas que é escutado por seus pais e provoca uma resposta.
Estes exercícios sonoros iniciais do bebê PROVOCAM nos pais um momento de escuta, e aí parece que novamente entra em cena a varinha mágica, pois de mamãe, papai ou coca a criança destrambelha a falar, como diria minha avó.
Do primeiro ao segundo ano de vida o trabalho do pai, da mãe e do bebê é intenso: primeiras palavras, primeiras frases e… aquele bebê tranquilo começa a ser senhor do seu corpo e do seu desejo. Passagem que, sem a fala, ele não conseguiria fazer.
E daí para a frente enfrentamos outros problemas que nos deixarão de cabelo em pé, a criança conhece o não!!!
“Tire a chupeta pra falar, menino” pode vir acompanhada de um sim, e aí é aparentemente mais tranquilo para nós, pois estamos diante de uma criança “obediente”, o que, ingenuamente nos enche de orgulho, ou de um não, e aí ficamos entre a cruz e a espada, dilema que carregaremos sempre nesta nossa tarefa de pais: tiramos, pois como adultos temos condição de fazê-lo, ou respeitamos este não?
Talvez, aqui, sim precisaremos emprestar da Hermione, e não do Harry Potter que vacila tanto nas suas decisões, a varinha mágica e …