Por Ana Clélia de Oliveira Rocha

Tenho recebido duas demandas de pacientes que, de início, julgava distintas, mas estou percebendo que há alguns pontos comuns a ambas. Vamos aos fatos:

– Famílias de crianças de um ano e sete meses procuram-me com a seguinte queixa: “Meu filho está demorando para falar… será que está dentro do espectro autista?”

Em casos que atendi recentemente, as crianças eram segundo filho, tinham irmãos bastante falantes e que ocupavam a cena familiar. Não estavam na escola, tinham bom desenvolvimento motor, boa saúde, nenhuma outra intercorrência. Quando as vi, eram crianças que me olhavam, estranhavam, procuravam o outro para brincar, corriam, resmungavam quando não eram atendidos, enfim, eram bons interlocutores mas econômicos na fala. Nada que os impedisse de se tornar bons falantes após a entrada na escola, uma boa conversa com a família esclarecendo sobre o desenvolvimento da fala e o tempo de que cada criança necessita. 

– Famílias de crianças com 6 anos que me procuram porque os filhos não estão aprendendo a ler, não memorizam as letras, espelham os números na hora de escrever… e questionam: “Será que eles têm déficit do processamento auditivo?”

Nos casos mais recentes, eram crianças que estavam no primeiro ano (lembrem que é o início do fundamental I, ou seja, até há pouco tempo era pré-escola ainda…), tinham irmãos mais velhos “que iam muito bem e aprenderam a ler tão facilmente que eu nem me lembro”…  Sem outras queixas, sem otites de repetição, sem questões de fala, boa compreensão… “Ah! Usam o celular com música alta no carro…” Enfim, aqui se faz necessário também, como nos casos das crianças que demoram para falar,  um bom esclarecimento sobre o momento em que estão na aprendizagem escolar, sobre as diferenças que cada criança apresenta neste processo, sobre a comparação com o filho mais velho , talvez, quando for preciso, uma boa conversa com a escola lembrando que estamos no início e que algumas crianças precisam da intervenção do professor de modos mais objetivo ou mais frequente para ajudá-las nas construções da escrita…

Bom,  e  o que há em comum nestes dois exemplos?

  1. Há uma angústia sobre o tempo: o tempo urge, é necessário falar e escrever rapidamente para que nós, pais, fiquemos tranquilos… Para que a sociedade não tenha o que nos questionar;
  2. Há também um imperativo do discurso médico atravessando o tempo de constituição de uma criança: se não fala corre-se o risco de não detectarmos precocemente um autismo… e se não escreve há falhas no processamento auditivo e temos que tratar imediatamente;
  3. Há um imperativo do DR. GOOGLE  ( é uma facilidade dos nossos dias pois uma clicada pode nos esclarecer sobre quase tudo…), pois recorremos a ele para entender quase tudo, e um desconhecimento da subjetividade particular de cada criança.

Ok… Mas também desconsiderar tais possibilidades pode ser arriscado e, se o problema realmente existir, atrasarmos o tratamento, não?

Sim, por isso um bom clínico é essencial. Uma criança deve ser acompanhada por um médico/pediatra que  oriente, converse com os pais quando algo da constituição psíquica e/ou do desenvolvimento estiverem discordantes. Desde o nascimento é importante este outro olhar sobre o desenvolvimento para que a família possa, juntamente com o especialista, olhar e cuidar para que esta criança cresça, fale, ande, corra…

Com os mais velhos, aqueles que já começam a se aventurar na leitura e na escrita, também é importante este mesmo olhar. Este olhar que permita reconhecer o tempo de cada criança, que permita compreender que ele é único e que os parâmetros de desenvolvimento sejam referências lidas e interpretadas a partir de cada aquisição.   

Há questões de processamento auditivo que interferem na aprendizagem. Há crianças que estão dentro do espectro autístico. Há também aquelas que respondem de modo bastante particular ao tempo das aquisições… A tarefa de identificar, classificar, cuidar, tratar é sempre um trabalho de todos!  Voltaremos a tais temas nas próximas publicações.