Maurício de Souza, um dos mais famosos cartunistas brasileiros, nos presenteia desde a infância com os personagens da Turma da Mônica. Quem não se divertiu, ou ainda se diverte, com a Mônica, o Cebolinha, o Cascão, a Magali e tantos outros personagens que representam as crianças nas histórias em quadrinhos?

Podemos encontrar nestas histórias diferentes características que compõem cada personagem, e fazem parte da trama dos quadrinhos as questões que as crianças vivenciam durante a infância, como medos, tristezas, pesadelos, conflitos, construção de vínculos, aventuras etc.

Representando o mundo da infância, Maurício de Souza não poderia deixar de fora as diferentes características de fala dos personagens da turma: temos o mudo, o gago, o que troca letras, o que grita, o que fala com sotaque do interior…

Retomo esses exemplos, pois representam a diversidade que as crianças manifestam na fala que supostamente se pode encontrar durante as aquisições na infância. São exemplos comuns, cotidianos, da linguagem dos pequenos que estão descobrindo palavras novas a cada dia, como articular os diferentes sons, como argumentar e se representar pelo discurso oral perante o outro.

Mas e quando a criança apresenta um quadro que em nada se parece com o que é divulgado pela cultura? Quando é parecido, mas o desfecho não é o mesmo? Ou seja, se espera que a criança inicie uns tropeços na fala, porém que eles sejam logo superados.

Quando recebemos no consultório fonoaudiológico uma pequena criança que ainda não fala ou está atrasada em suas aquisições de linguagem, temos uma gama de possibilidades, de hipóteses diagnósticas que se apresentam a partir dessas mesmas queixas. A partir da avaliação clínica pode-se entender melhor o que está acontecendo com a criança em casa, na escola, com seus pares e então indicar a melhor conduta.

Uso o conceito de hipótese diagnóstica, pois na clínica da infância trabalhamos com sujeitos em constituição. Portanto, respeitando esse percurso, temos que ter o cuidado de não antecipar diagnósticos que podem estar equivocados ou que podem “amarrar” a criança a uma direção de previsão. A única previsão que podemos arriscar é que a criança está em desenvolvimento, portanto descobrindo, aprendendo, vivenciando a partir de experiências no cotidiano, muitas descobertas e aquisições.

Esse caminho é trilhado junto ao outro interlocutor, que é quem propicia ao pequeno tais possibilidades, colocando a criança em situação dialógica, conversando com ela, escutando-a, ou seja, colocando-a no lugar de quem tem a dizer, lugar de sujeito. E isso as relações virtuais não podem fazer, como já foi escrito neste blog em textos anteriores.

A criança em desenvolvimento está sujeita a muitas mudanças, o que permite realinhá-la ao seu caminho, e portanto patologizar uma criança pode, aí sim, desencadear uma série de efeitos sobre ela e sua família – muitas vezes, irreversíveis.

As crianças que ainda não falam muitas vezes manifestam comportamentos que afligem a família, como não brincar com outras crianças, não olhar… crianças que muitas vezes estão alheias à situação, parecem não ouvir ou não compreender o que o outro fala, inclusive.

As informações sobre o desenvolvimento, sobre a comunicação, exames auditivos, observação da motricidade e do brincar da criança também são elementos essenciais para o raciocínio do clínico, assim como histórico familiar, ou seja, outros casos similares na família podem ser um importante dado na composição do diagnóstico.

Já quando uma criança fala com trocas e omissões não esperadas para a idade, pode parecer imatura, menor, aquela que apresenta dificuldades ou ainda ser percebida como não inteligente e frágil.

A questão diagnóstica na clínica da infância requer muita delicadeza e cuidado, o que segue na contramão da contemporaneidade. A pressa, a urgência, a ansiedade pode resultar em enganos graves.

Nesse sentido cito aqui o exemplo dos casos de crianças com DEL (Distúrbio Específico de Linguagem – tema que será apresentado em breve neste blog), pois, muitas vezes, a queixa de atraso na aquisição de fala é o primeiro sintoma nestes casos. É um quadro que se pode entender a partir do diagnóstico diferencial, e portanto é necessário mais tempo para fazer uma avaliação cuidadosa, porque pode ser confundido com outros problemas que comparecem em crianças que apresentam atraso para falar de forma geral.

A importância do entendimento deste quadro é fundamental, pois a criança pode precisar de um tratamento mais prolongado, devido a dificuldades manifestadas nas praxias orais, o que compromete a inteligibilidade de fala. Nesses casos a parceria com o médico foniatra para o diagnóstico e acompanhamento desses pacientes é complementar, articulado ao trabalho terapêutico, que reavalia as crianças, solicita exames quando necessário e auxilia na reflexão sobre a direção do tratamento.

Considerando que a fala é aquela que nos representa, que nos permite expressar desejos, argumentar, opinar, como pode uma criança se manifestar e ser percebida como sujeito pensante apropriada de sua linguagem se for entendida como outra coisa?

Convido-os a refletir sobre o tema!

 

Marta G. G. Baptista é fonoaudióloga clínica, especialista em linguagem e doutora em fonoaudiologia