Por Marta Gimenez Baptista

Com certeza não é o tamanho das orelhas que determinará o tanto que se ouve, parafraseando a história da Chapeuzinho Vermelho, mas para ouvir de fato é preciso que tudo esteja funcionando.

Sabemos que, para que a criança fale, ela precisa ouvir, e ouvir bem.

Quando trabalhamos com crianças nos deparamos com as vicissitudes que os pequenos sofrem durante suas aquisições, e entre elas estão envolvidas as questões sobre a audição.

A criança está com a audição naturalmente preparada para ouvir desde a gestação. Mas é a partir do nascimento que a criança, na relação com o outro, aprende a escutar e a entender os sons que vai captando pela audição. A criança começa a desenvolver sua acuidade auditiva, que é um importante trabalho desse órgão, especialmente durante o primeiro ano de vida. Reconhecer os sons, discriminá-los,  identificá-los, detectar as diferenças entre a doce voz da mãe e a grave voz do pai, os sons musicais, o latido do cachorro, o desagradável ruído da porta batendo ou o barulho dos trovões em dias de chuva faz parte desse rico momento de aquisições do bebê, que em breve se tornará um menininho ou uma menininha, e que para tanto precisará falar para se fazer representar.

Temos recebido na clínica fonoaudiológica muitos casos de problemas auditivos, mas não de crianças que têm perda auditiva, e sim as que estão sofrendo desse mal, a falta da audição. Em outras palavras, as crianças, particularmente as que vivem em cidades onde há mudança de temperatura brusca , constantes inversões térmicas, poluição, sofrem das doenças respiratórias. De alergias a infecções, muitas vezes os pequenos que apresentam tais quadros acabam parecendo “surdos”, pois as vias aéreas superiores obstruídas (narinas, seios da face, tuba auditiva) acabam por comprometer um canal tão importante de recepção: a audição.

As crianças que permanecem com otites e quadros com presença de muita secreção podem estar ouvindo mal, o que é bastante delicado, especialmente para os  pequenos que estão em plena aquisição de linguagem. Este momento é precioso, pois a audição é peça fundamental para o feedback auditivo, para que a criança possa ouvir o outro e se escutar também. Elas chegam aos consultórios com atrasos de linguagem, trocas na fala, dificuldades na escola e muitas vezes problemas de comportamento.

Claro, se a criança não ouve bem, imaginem quantas vezes perdeu os combinados sobre as brincadeiras, ou ficou sem entender uma explicação ou qualquer outra mensagem. Acaba por manifestar irritação, frustração, ou passa por um menino(a) “desligado(a)” . Ficar sem ouvir ou ouvir como se o ouvido estivesse “tampado” é o mesmo que ficar de fora da situação, da conversa, da brincadeira.

Recebemos na clínica crianças que estão tão alienadas pela falta do bom funcionamento desse órgão e com comportamento tão estranho para a idade que chegam a ser confundidas com autistas, por exemplo, devido ao isolamento que sofrem nesse momento tão importante de desenvolvimento.

O atraso de fala pode ser um sintoma de diversas patologias, mas até para que se faça um diagnóstico e conduta mais assertivos é fundamental que se tenha certeza se o corpo está funcionando bem.

Para tanto, muitas vezes é necessário encaminhar a criança para um médico otorrinolaringologista para tratamento clínico (medicamentoso) ou para intervenção cirúrgica, quando necessário, e avaliação audiológica.

Uma infecção mal ou não tratada e contínua pode resultar em prejuízo definitivo para audição. O que é muito grave para uma criança que está em constituição.

Pra que essas orelhas tão grandes?

Tão grandes não sei, mas se o grande é – entendido como uma metáfora – para ouvir bem/melhor, respondo:

– Pra ouvir a palavra do outro, as músicas da infância, a conversa dos amiguinhos e até a história da  Chapeuzinho Vermelho.