Paula Antunes Ruggiero

Algumas crianças chegam à escola de Educação Infantil com muita dificuldade para interagir com as outras. Brincam sozinhas, evitam o contato, ficam inquietas nos momentos coletivos, choram, querem sair da sala ou mexem em tudo. Ficam bem no espaço do parque, mas não gostam da sala de aula. Para elas é muito difícil participar de um grupo, brincar com o outro ou dividir a atenção do professor. São crianças com mais dificuldade de tolerar frustrações, precisam ser atendidas prontamente, desorganizam-se com a espera. Sentam e logo levantam, participam apenas de algumas propostas.

Para os colegas nem sempre é fácil entender o que se passa, por que o amigo não está bem ou não quer participar. Alguns tentam tranquilizar a criança dizendo: A mamãe já vai chegar!

Para o professor, é difícil atender ao mesmo tempo as necessidades especiais da criança e a demanda do grupo. São todos pequenos, todos precisam de atenção especial, de colo e aconchego. Quem privilegiar num determinado momento: a criança ou o grupo? Essa é uma angústia bem comum.

A questão é que, se a todo momento o coletivo se suspende para atender  o  individual, a criança que em certo momento se desorganizou, ao voltar a se organizar, não conta mais com a atividade em que poderia vir a se engajar, dado que a mesma se suspendeu ao deixar de contar com a sustentação do professor.

Essa dinâmica – atender o singular e sustentar o coletivo – é que torna tão necessário, com crianças pequenas, a presença de um professor auxiliar que faça essa mediação própria do ensino infantil, no descentramento de suas vontades, na participação dos hábitos de vida diária, das atividades coletivas, do cuidado de si, dos outros e do que se produz no espaço coletivo. Aprender a compartilhar os objetos e a atenção dos adultos não é tarefa fácil.

Diante disso, há situações nas quais uma criança requer de modo quase permanente a mediação de um adulto para vir a estabelecer a possibilidade de engajar-se no coletivo, excedendo a possibilidade de mediação do professor auxiliar da turma. Nesses casos, se coloca uma questão: por que não contemplar essa necessidades de ajuda transitória a favor da conquista da criança?

Em alguns casos, é uma questão de tempo, do tempo do desenvolvimento que é diferente. A criança precisa de um adulto de referência para ajudá-la fazer a passagem do individual para o coletivo. Aos poucos, com essa ajuda, ela entende que tudo ficará bem, sente-se respeitada, tranquiliza-se e pode disponibilizar-se para a relação. Primeiro com alguns colegas, depois com um grupo maior. O tempo em que consegue estar no grupo aumenta e a criança passa a aproveitar as vivências que a escola proporciona.

Em outros casos, a necessidade de um adulto para ajudar a criança se estende por mais tempo  –  exemplo disso são as crianças de 5 ou 6 anos que choram ou têm resistência para se separar da mãe na entrada da escola, numa fase em que isso já está superado pela maioria. Ao entrar, precisam de um tempo grande ao lado do adulto, até se soltarem para as relações com os colegas queridos e para as atividades  conhecidas. Muitas vezes, é necessário chegar bem pertinho delas para convidarmos para a sala, pois não atendem aos chamados coletivos. Negam-se a fazer determinadas atividades, fazem apenas o que querem.

Alguns colegas são muito generosos, descobrem maneiras de ajudar a criança a “quebrar o gelo” e a participar do grupo. Acolhem, percebem o tipo de brincadeira de que a criança gosta. É lindo de se ver como esse encontro com o semelhante, com parceiros da mesma idade, é propiciador de conquistas para uma criança.

Os professores buscam pontos de interesse, socializam algumas temáticas de interesse da criança como forma de ela participar do grupo e avançar nas relações com o mundo.

Há outro tipo de situação difícil, o das crianças que são muito inquietas, agitadas, brigam, falam muito alto, resolvem os problemas pela força bruta. Só vêem seus pontos de vista e fazem muitas gracinhas para chamar a atenção. Às vezes rasgam trabalhos e cutucam os colegas para brincar… Isso sempre foi chamado de indisciplina.

Outro dia uma querida estudante de pedagogia me perguntou sobre indisciplina escolar para um trabalho da faculdade. O que dizer sobre indisciplina na educação infantil? Pergunta difícil, pois a indisciplina está  na oposição da disciplina, ligada ao conceito de obediência, ou seja, de uma relação unilateral do professor para com o aluno. Hoje eu vejo a indisciplina como a incapacidade (ainda) de estar em um grupo como mais um. Como se a criança precisasse se destacar pelas coisas erradas que faz.

Estas atitudes atrapalham o andamento do grupo, pois a criança requer a atenção do professor o tempo inteiro. Por outro lado, as outras crianças se agitam, não entendem o porquê das agressões.

Telma Pileggi Vinha e Luciene Tognetta* têm uma abordagem muito interessante sobre o conflito em sala de aula, do conflito como possibilidade de trabalhar o desenvolvimento moral. Se a relação com crianças da mesma idade acontece primordialmente na escola, é importante que esta possa ajudar.

Diante de um conflito em sala de aula, podemos trazer para os envolvidos a perspectiva do outro. É importante a criança ter um espaço para falar sobre ela mesma, sobre seus conflitos e ouvir a implicação disso no outro.

Luciene Tognetta propõe que a afetividade seja parte do currículo escolar.  Em termos de desenvolvimento moral, o sentimento é quem move a ação, por isso tratar de sentimentos é tratar verdadeiramente das ações. A possibilidade de ouvir o outro implica conhecer os sentimentos que movem o colega, este caminho leva a uma efetiva resolução dos conflitos. Diz Tognetta: “Manifestar o que se sente permite que sejam encurtados os caminhos para se chegar à resolução de um conflito”. De outra maneira, apaziguamos, mas não caminhamos em direção ao desenvolvimento moral da criança.

Enfim, a escola tem uma importante função na socialização das crianças, tenham elas dificuldades de um tipo ou de outro. Não há, de fato, uma única maneira de lidar; longe disso, cada criança traz a possibilidade de aprendermos uma nova maneira de ajudá-la na passagem do individual para o coletivo.

 

* TOGNETTA, L. R. P. A construção da solidariedade na escola e a educação do sentimento na escola. Campinas: Mercado de Letras, FAPESP, 2003.