Por: Sulene Pirana

Contamos desta vez com a colaboração da convidada Dra. Sulene Pirana, médica otorrinolaringologista e foniatra. Ela analisa a importância de considerar os exames orgânicos necessários, mas sem incorrer em reducionismos, dada a complexa relação existente entre audição, desenvolvimento da linguagem e aprendizagem. (Julieta Jerusalinsky)

No consultório têm sido frequentes as queixas de dificuldades de aprendizagem (em especial leitura e escrita) e de alterações na fala e linguagem (trocas ou omissões de sons na produção de fala, perturbações no ritmo da fala). Esses indivíduos, geralmente crianças, necessitam de uma avaliação cuidadosa em busca de um diagnóstico diferencial, para que se possa verificar a melhor estratégia de tratamento.

Uma das funções primordiais para o adequado desenvolvimento da linguagem e aprendizagem é a audição.

Além de receber o sinal acústico, para ouvir precisamos de: atenção, concentração, capacidade de compreensão e desejo, pois ouvir é função do cérebro, que dá significado aos sons, compreende e programa uma resposta ao estímulo percebido e interpretado.

Para que essa significação ocorra corretamente, várias estruturas entre a orelha e o cérebro participam, processando o som. Este caminho é o processamento auditivo.

Alterações desta função causam dificuldades na linguagem, na fala, na aprendizagem.

As causas desta alteração podem ser genéticas; pós-infecções otológicas; audição flutuante nos primeiros anos de vida quando as vias auditivas estão em desenvolvimento…

A avaliação do processamento é realizada pelo exame clínico e também por exames específicos, formais, realizados em cabine acusticamente tratada.

Os exames formais do processamento só são realizados a partir dos 8 anos de idade, quando as vias auditivas estão adequadamente “amadurecidas”.

Nas alterações do processamento, a criança parece não ouvir bem, e os exames de audição periférica são normais; a dificuldade acentua-se em ambientes ruidosos, com muitos estímulos auditivos e visuais; parece mais lenta no aprendizado.

  • Desatenção
  • Respostas inconsistentes ou inapropriadas
  • Necessário repetir a mensagem oral: necessidade percebida pelas expressões hã? o quê?
  • Distração
  • Dificuldades em localizar a fonte sonora
  • Dificuldade de leitura e escrita
  • Dificuldade de aprendizagem

Com certeza muitas crianças já apresentaram um ou mais desses sintomas em algumas situações. Isto não significa que tenham alteração do processamento; eles podem acontecer em indivíduos com audição absolutamente normal, em algumas situações sem configurar uma condição de distúrbio do processamento.

Nos distúrbios do processamento auditivo essas alterações são repetitivas e trazem prejuízo na comunicação, relacionamento social e/ou aprendizagem.

Essas queixas também não são exclusivas do distúrbio do processamento auditivo, podem estar presentes nos déficits de atenção, dificuldades intelectuais, perturbações emocionais…

Nestes casos, se forem realizados os exames de processamento auditivo eles também estarão alterados!

Portanto o diagnóstico deve ser feito por equipe multidisciplinar (médico, fonoaudiólogo, psicólogo), evitando tratamentos inadequados que podem atrapalhar mais do que ajudar.

Muito tem se falado sobre o processamento da audição: nas escolas, nos consultórios….

Quando as crianças falham no que se espera de seu aprendizado escolar, muitas vezes o primeiro a ser implicado é o processamento.

Recebo no consultório famílias que solicitam, antes mesmo de qualquer avaliação o exame de processamento.

Isto tem implicado em um reducionismo das dificuldades escolares: solicita-se o exame e quando ele vem com alguma alteração: Ah, seu filho não aprende porque tem problema de processamento…

O aprender é muito complexo e não pode ser definido por apenas uma função cerebral.