Dia 12 de outubro foi Dia das Crianças. O que mais elas desejaram nesta data? Ganhar brinquedos. Sim, muitos brinquedos ou “aquele brinquedo”. Não importa. O importante é poder brincar. Uma criança feliz passa seu tempo brincando: agora eu era… E percebemos que algo não anda bem com ela quando deixa de lado seu brinquedo favorito.

O que faz desta atividade algo tão representativo da infância que ousamos chamar de sintoma? Para responder esta pergunta, um bom exercício é lembrarmos de como foi nossa meninice. Nós adultos, nostálgicos do que perdemos, costumamos dizer que no nosso tempo brincávamos mais, tínhamos a rua como universo, e um simples pedaço de pau podia ser muita coisa: uma espada, um cavalo, um míssil, enfim, o que desejássemos que fosse. A criatividade estava ao nosso lado. Talvez nossa infância não tenha sido tudo isso que falamos, mas é comum dar um valor a mais para aquilo que se perde. Hoje somos os grandes (lembro de um desenho que recebi num dia dos pais onde estava representado por longas pernas), mas no passado fomos seres frágeis e dependentes, insuficientes diante da grandeza e sapiência dos adultos para quem tínhamos que olhar para cima quando queríamos ser olhados por eles. Curioso é que diante desta pequenez brincávamos de ser o super-homem. Poderia haver melhor maneira de representar o oposto do que éramos, o que os adultos pareciam ser para nós e o que supúnhamos que eles queriam que fossemos? No entanto, no que nos tornamos hoje?

O brincar é um jogo de faz de conta que se joga em três tempos. O primeiro tempo lógico é o presente, o ato de representar. “Faz de conta que agora eu era o Neymar, dribla um, dribla dois, chutou, é gooolll!” O que chama atenção na criançada a respeito de Neymar é sua imagem de craque da bola bem sucedido, admirado e reconhecido por todo o mundo. Um ídolo. O que mais poderia desejar um pai para seu filho, senão o sucesso em sua carreira profissional ? Mas o pirralho tem seis anos de idade, que história é essa de trabalho? Será que não estamos aqui fazendo uma antecipação do tempo? Aí vem o segundo tempo. Uma criança, quando faz suas macaquices na frente dos pais, quer é ser olhada por eles, constatar aí se é desejada por seus responsáveis cuidadores. Os pequenos estão de olho no ponto para onde o desejo dos adultos aponta. E este ponto é a medida que falta entre o que queríamos ser e o que somos na realidade. Esta diferença é o que passamos como demanda para nossos filhos, o que a cultura projeta enquanto ideal. Neste caldeirão inconsciente estão embutidas nossas dúvidas, incertezas, inseguranças. O segundo tempo é o passado, mas como pode um ser tão jovem já ter um passado? O passado é o que aparece pela fantasia dos pais transmitida naquilo que esperam de seus filhos. Pode um pequeno sujeito responder hoje ao que se espera dele quando for adulto? No tempo presente, de forma real, é evidente que não. Então só lhe resta fazer de conta hoje e experimentar uma resposta ao que poderia vir a ser no futuro, terceiro tempo.

É nesta lógica de três tempos que se estrutura a passagem da infância; e é no brincar que as crianças podem tentar simbolizar aquilo que delas se espera, mas que sua insuficiência corporal e de saber não lhes permite ainda responder de forma efetiva. Abusando com o poeta, brincar é preciso, pois viver não é preciso.