Por Adela Stoppel de Gueller

Estou tentando fazer amigos fora do Facebook. Saio na rua e vou dizendo pra todo mundo o que comi, como me sinto, o que estou fazendo e o que farei mais tarde. Escuto a conversa dos outros e grito “curti”. Até agora, já tenho três pessoas me seguindo: dois policiais e um psiquiatra.

A piada, como dizia Freud, revela algo oculto: o que se passa nas relações entre os jovens atualmente? Eles conseguem falar, manter uma conversa se olhando nos olhos? Sentada num bar em frente à praia com três adolescentes, tentava estabelecer uma conversa enquanto cada um deles olhava para seu celular e ia comentando quantas curtidas tinha a foto que acabava de postar, numa espécie de jogo para ver quem tinha mais amigos/seguidores. Fui ficando irritada. Era mais importante mostrar a outros, distantes, onde estavam do que apreciar esse lugar. Era mais importante se exibir do que experimentar, manter contato com a rede do que interagir com os que estavam ali. Os olhares não se cruzavam. Cada um estava em outro lugar.

O mundo digital está em todo lugar e faz parte de nosso cotidiano. Ele oferece tantas possibilidades de acesso a informações e tantas vias de comunicação que não deixa de surpreender e maravilhar a cada instante. É apaixonante! Mas basta haver 3G nos celulares para que os passageiros no ônibus não saibam mais quem está sentado a seu lado. Todos olham para seu aparelhinho. Diferentemente dos “relacionamentos reais”, é fácil entrar e sair dos “relacionamentos virtuais”. No mundo digital, não é preciso decifrar os gestos do parceiro. Em comparação com as dificuldades, o peso, a lentidão e as confusões dos relacionamentos corpo a corpo, os relacionamentos virtuais parecem inteligentes, limpos, fáceis de usar, compreender e manusear. Em seu livro Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos, Zygmunt Bauman conta que, entrevistado a respeito da crescente popularidade do namoro pela internet, em detrimento dos bares para solteiros e das seções especializadas em jornais e revistas, um jovem de 28 anos, da Universidade de Bath, apontou uma vantagem decisiva da relação eletrônica: “Sempre se pode apertar a tecla deletar”.

É verdade que a tecnologia nos ajuda a sentir que estamos mais perto de pessoas distantes, mas será que nos aproxima das que estão por perto? Podemos reencontrar amigos que não vemos há décadas e que nem sabemos ao certo onde estão, mas será que conseguimos fazer novos amigos? O que acontece quando faltam o corpo a corpo, a carícia e o aperto de mãos, o encontro de um olhar furtivo, a percepção do rubor ou a mudança sutil do tom da voz do interlocutor?

O celular e outras telinhas que acompanham as crianças desde idades cada vez mais precoces estão mudando as relações interpessoais. E isso não acontece só entre adolescentes. Hoje, mesmo os adultos se comunicam muito mais virtualmente – por e-mail, WhatsApp ou Facebook – do que “realmente”. Escrevemos mais do que falamos. Vemos mais do que escutamos, o que nos leva a concluir que está mudando nossa percepção do mundo à nossa volta.

Retomando os estudos de Merleau-Ponty sobre o olhar e a percepção, Marilena Chauí afirma que “olhar é ter a distância”, isto é, o olhar permite abraçar o mundo, mas não se apropriar dele.

As crianças de hoje abrem à percepção muitas janelas simultâneas. Fazem as tarefas da escola no computador, enquanto conversam no Facebook, trocam mensagens e postam fotos no Instagram. Têm sido chamadas de crianças-multitarefa. Aprendem mais por tentativa e erro do que em manuais ou seguindo instruções. Preferem consultar o Google a perguntar à mãe, ao pai ou ao professor. “Não preciso aprender matemática”, me disse Pedro, de 6 anos. “Se eu coloco no Google quanto é 3+5, ele me fala”. E Felipe, quando tinha 15, foi aprender como fazer a barba no YouTube, em vez de pedir dicas ao pai. Lembremos dos grupos virtuais, do Yahoo Respostas. As relações crescem em extensão, mas não necessariamente em profundidade. Crianças e adolescentes medem os amigos pelo número de contatos e mensagens recebidas. Jogam com pessoas do mundo inteiro, que nunca viram e nunca verão. Mantêm com elas relações informais e cooperativas.

Não adianta pedir aos jovens que se concentrem numa coisa só, porque nos olham como se fôssemos dinossauros! Surpreende, então, que haja tantas crianças com déficit de atenção? Não podemos afirmar que as telinhas causem esses transtornos, mas elas se encaixam tão perfeitamente no funcionamento psíquico das crianças de agora que o resultado é problemático.

Quando encontramos um remédio que tira imediatamente uma dor crônica, não queremos nos separar dele, porque sabemos que a “solução” estará ao alcance da mão. É nesse sentido que os eletrônicos funcionam como uma droga milagrosa de que os jovens não se querem separar. E já passou a época em que os adultos se surpreendiam com a proficiência das crianças para mexer com eles. Hoje, o que os preocupa é que elas não querem desligá-los. A relação estabelecida com os objetos eletrônicos é de dependência. Somos todos usuários desde épocas cada vez mais precoces. As crianças ganham seu primeiro celular cada vez mais cedo e, com ele, têm acesso a quase tudo. Os pais argumentam que, desse modo, podem controlar onde estão e o que fazem seus filhos, e, assim, zelar por sua segurança. O que ficou fora de controle é o uso que as crianças fazem disso. O que estou discutindo aqui não é a enorme variedade dos conteúdos acessados, mas a mera dependência do fato de estar plugado.

João tem 5 anos e não para quieto um segundo: trepa em todos os móveis, não dá um minuto de sossego aos pais, que temem por sua segurança. Mas, com joguinhos eletrônicos à disposição, pode ficar horas a fio sentado, sem incomodar ninguém. O contraste é notável. O estado agitado e ansioso fica imediatamente silenciado. E é claro que, quando querem um pouco de tranquilidade, os pais são os primeiros a lhe emprestar alguma tela. Sabem que a solução é instantânea. Nenhuma outra é tão eficaz e imediata.

Hoje, é comum ver crianças bem pequenas jogando com um Ipad ou um celular numa mesa de restaurante. E o surpreendente é que isso funciona! Há menos crianças subindo nas mesas e menos pais pedindo aos filhos que esperem calmamente o pedido chegar. Mas não nos iludamos. Não serão essas crianças as que terão mais paciência no futuro. Bem ao contrário, os avanços tecnológicos nos deixam cada vez mais ansiosos e inquietos e menos tolerantes a erros: “Droga, este celular travou!” E a vontade que dá é de jogá-lo pela janela. Por quê? Se partirmos do postulado freudiano de que o psiquismo funciona na base do princípio do prazer, não é difícil entender que nos agrade ter o que desejamos o mais depressa possível. Desse ponto de vista, a tecnologia, quanto mais avança, mais nos faz regredir. É uma corrida sem fim. Quanto mais nos é oferecido, mais esperamos e, consequentemente, qualquer falha nos põe num estado de privação ou frustração.

Por isso preocupa que os adultos ofereçam aparelhos às crianças cada vez mais cedo (até para se concentrar na hora de mamar!). Porque, desse modo, criam uma nova necessidade, da qual depois ficarão reféns. Como lembra Joyce Mc Dougall, a origem etimológica do termo adicção é a palavra grega que designa escravidão. Uma criança pode ficar horas assistindo TV sozinha, mas isso não significa que tenha aprendido a ficar a sós. Criou-se uma neonecessidade que dá uma falsa ilusão de autonomia, tanto às crianças quanto aos pais.

Se uma criança pode ficar tanto tempo jogando, é porque a tela afasta sentimentos de solidão, angústia, raiva, culpa ou qualquer outro estado afetivo que gere tensões psíquicas e iniba as fantasias e os medos. Desse modo, também são afastados afetos prazerosos que dão origem a sentimentos de excitação, vivacidade etc. e que são percebidos como proibidos ou perigosos. Em ambos os casos, afastam-se afetos conflitantes, que requerem processamento psíquico, o que é trabalhoso e demorado. Jogar é muito diferente de brincar, atividade constitutiva que permite e favorece a elaboração, estimula a imaginação e permite criar recursos psíquicos para lidar com as angústias próprias da vida.

Não é raro que as crianças tenham dificuldade para dormir depois de ter ficado ligadas horas a fio. A distração com os joguinhos eletrônicos é instantânea e estimulante. É só clicar um botão. Não é preciso pensar, muito menos falar ou contar uma história, nem encontrar-se com os fantasmas que aparecem no escuro da noite. E se, por qualquer motivo, o celular falta, vemos as crianças num estado que lembra a abstinência. “Mãe, o que eu faço agora? Estou entediado”, dizem. Rosa deixou seu filho de 10 anos dormir na casa de um amigo, mas, por volta das dez da noite, teve que lhe levar o Ipad, porque ele não conseguia ficar a sós com o amigo. Sem seu Ipad, sentia-se inseguro e desamparado.

O acesso ao mundo virtual é fácil e nos dá ilusão de domínio. Não nos faz esperar, alimenta nossos olhos, não nos incomoda com perguntas nem discorda de nossas opiniões. Oferece tudo ao alcance do polegar (daí que o filósofo francês Michel Serres tenha falado em Polegarzinhas e Polegarzinhos). Só vai embora quando nós desejamos. Está sempre disponível. Lembremos do filme Ela, de Spike Jonze. Logicamente, as crianças também querem isso. Ninguém gosta de ter que esperar. Ninguém gosta de ter que ouvir e aceitar um não.

O apelo é igualmente sedutor para os adultos. Maria tem 6 meses. Vê seu pai assistir TV, olhar o Ipad e mexer no celular e, quando ele desliga a telona, ela fica triste. Onde foram parar as cores brilhantes, a música e o movimento? O mundo real está ficando desinteressante e todo o brilho está no mundo virtual? Bebês precisam ser olhados, precisam que adultos brinquem com eles, lhes falem, cantem e contem histórias. Precisam que adultos se encantem com seu sorriso e seus balbucios. Precisam eles mesmos fazer brilhar o olhar dos pais. À falta disso, eles prendem o olhar em algo que chame atenção, que brilhe. Mas o efeito estimulante das imagens virtuais não é o mesmo que o de ter que imaginar a partir de um relato ou de uma melodia. No primeiro caso, depende-se de um objeto externo; no segundo, é possível ter uma verdadeira autonomia, a capacidade para ficar a sós.

Nós, adultos, sabemos que podemos ligar a TV para não ter que pensar e assim descansamos um pouco do peso dos conflitos do mundo real e das responsabilidades. Mas precisamos refletir seriamente sobre a precocidade com que permitimos que nossas crianças usem a tecnologia, já que ela parece intervir em detrimento da imaginação e do pensamento, que devemos exercitar para nos tornarmos humanos capazes de abrigar dentro de nós ideias conflitantes e sentimentos contraditórios, próprios de nossa espécie, e que não se resolvem apertando um botão.

Esta série de publicações do blog tratará das consequências que os aparelhos eletrônicos e meios virtuais de relação têm produzido nas relações cotidianas familiares e na constituição das crianças. Além dos textos de Julieta Jerusalinsky e de Adela Gueller, já postados, será publicado na sequência artigo de Alfredo Jerusalinsky.