gato no vaso sanitário

Vômitos frequentes em gatos pode significar uma doença grave. frankieleon/Creative Commons

Alerta: não ler se estiver comendo ou se tiver estômago fraco. Vamos abordar algumas questões um tanto escatológicas.

Há 4 meses comecei a perceber mudanças no meu gato Félix. Ele estava vomitando quase todos os dias, estava emagrecendo… Ao se alimentar, cuspia uma parte da ração, como se fosse algo com gosto ruim e babava.

O Félix sempre teve vômitos esporádicos, principalmente quando comida muito e rápido. Mas nesse caso, as rações saiam basicamente inteiras. Nessa nova situação, era o alimento já digerido, um líquido marrom.

Todos esses sinais me angustiaram, principalmente a grande perda de peso. Obviamente fomos ao médico-veterinário especialista em felinos. Assim começou a saga para um diagnóstico. Foram 2 meses de diversos exames, consultas, retornos e nada. Desesperador! E o Félix só piorando. Vômitos mais do que uma vez ao dia, daqueles tipo exorcista (ok, muito detalhe). Diarreia quase que diariamente. Nessa época já havia perdido mais de 2kg (para um gato é muito!). Estava perdendo massa magra (musculatura). Por isso, já não conseguia subir em locais mais altos e tinha dificuldade para descer.

Marquei mais uma consulta, como uma última tentativa. Já desanimada, vendo meu gato definhando, aceitei a sugestão do médico-veterinário para refazermos o Ultrassom e o r raio-X.

Bingo! Achamos!!!

Como eu sou muito neurótica, aos primeiros sinais já busquei o médico-veterinário. Porém, os exames disponíveis ainda não detectavam o que de fato estava acontecendo. Ele precisou piorar para vermos alterações em Ultrassom e hemograma. 

Agora, a suspeita era de linfoma alimentar. Para garantir o diagnóstico, somente com uma biópsia de intestino. Foi dada a opção de iniciar o tratamento, mesmo sem o diagnóstico fechado. Mas depois de tanto tempo em busca de uma certeza, decidi pela cirurgia exploratória. Alguns amigos gateiros me desencorajaram a fazer. Disseram que pode dar falso negativo ou laudo inconclusivo. Mas o veterinário me assegurou que um bom cirurgião saberia pegar os fragmentos certos.

Os materiais colhidos foram para uma primeira análise (histopatológico), o que deu inconclusivo. Seguimos para o exame de imunoistoquímica e o quadro foi fechado: linfoma alimentar. Um tipo de câncer muito comum em gatos mais idosos.

Como a doença foi descoberta bem no início, o prognóstico é ótimo. Esperamos que haja cura em até 2 meses.

Depois de todo essa calvário felino, diversas dúvidas surgiram. Vamos a algumas delas.

cachorro olhando

Diversos sinais indica que há desconforto gastrointestinal em cães e gatos – This Year’s Love/Creative Commons

Principais sinais de doença gastrointestinal em cães e gatos?

Segundo Larissa Lima, Médica-Veterinária e Coordenadora de Comunicação Científica da Royal Canin, as doenças gastrintestinais representam um conjunto de alterações que podem afetar principalmente o estômago e o intestino dos gatos e cães. Distúrbios em outros órgãos, como o pâncreas e o fígado por exemplo, também podem afetar o sistema digestivo desses pets. “O diagnóstico correto de uma doença gastrointestinal pode ser um verdadeiro desafio na prática do médico-veterinário, uma vez que pode ser proveniente de múltiplas causas possíveis” explica.

A maioria dos sintomas de uma doença gastrointestinal não é específica e pode aparecer em mais de uma doença, sendo assim, podemos destacar os sinais e sintomas clínicos mais frequentes e que podem indicar alterações gastrointestinais em gatos e cães, como pontua Dra Larissa:

  • Vômitos: a presença de vômitos é um dos principais motivos para os tutores levarem seus pets para consulta ao médico-veterinário.
  • Diarreias: alterações na consistência das fezes (amolecidas ou ressecadas). No lado oposto, podemos observar também constipação em alguns casos.
  • Flatulência: os gases podem ser um sinal de má digestão em gatos e cães e o seu acúmulo pode levar a desconforto e dor abdominal.
  • Anorexia e perda ou diminuição do apetite: gatos e cães com distúrbios no trato gastrointestinal geralmente se apresentam nauseados, o que pode afetar diretamente o apetite deles.
  • Perda de peso: provocada pela diminuição na ingestão de alimento e devido à menor absorção de nutrientes em algumas doenças.
  • Letargia (desânimo, falta de energia).

É normal o gato vomitar com frequência? 

Segundo Larissa, o vômito é uma queixa bastante frequente dos tutores de felinos. Pode ocorrer de forma esporádica em gatos saudáveis sem que isso signifique algum problema de saúde. Porém, o aumento na frequência dos episódios de vômitos não deve ser considerado normal e deve ser investigado juntamente do médico-veterinário.

É importante diferenciar vômito, regurgitação e bola de pelo.

  • Vômitos: pode ser observado um conteúdo digerido com aspecto e conteúdo bastante variável (marrom, amarelo, espuminha branca), e pode estar relacionado com doenças gastrointestinais (como a gastrite e doença inflamatória intestinal) ou doenças de outras origens (como as doenças renais por exemplo). 
  • Regurgitação: podemos observar a presença de alimento não digerido, alimentos inteiros. Frequentemente a regurgitação ocorre logo após as refeições em gatos que possuem o hábito de se alimentar muito rápido e em grande volume, mas também pode estar associada a problemas esofágicos.
  • Eliminação de bolas de pelo: se formam naturalmente no aparelho digestivo do gato e quando a ingestão de pelo não é muito grande, ela é eliminada geralmente junto das fezes. Contudo, em maiores ingestões de pelo, o gato pode eliminar através de vômitos. Eliminações e vômitos constantes contendo bolas de pelo podem ser um problema para o felino, e por isso o tutor deve procurar por um médico-veterinário para auxiliar neste caso.
gato com vômito

Há diferença entre vômito, regurgitação e eliminação de bola de pelo – This Year’s Love/Creative Commons

Quando buscar um especialista em gastroenterologia?

Segundo Larissa, o médico-veterinário especialista em gastroenterologia é responsável por cuidar das doenças relacionadas ao sistema digestivo. Este especialista é capacitado para tratar principalmente as doenças mais complexas e desafiadoras que envolvem o trato gastrointestinal de gatos e cães. Por isso, o próprio tutor pode agendar uma consulta com este especialista quando observar alterações digestivas no seu pet, ou buscar por este especialista através do encaminhamento do médico-veterinário clínico que acompanhou primeiramente o quadro do gato e do cão.

Quando usar alimentação específica?

Gatos e cães com distúrbios digestivos devem receber uma alimentação específica que vai auxiliar no tratamento dessas alterações. Dra Larissa comenta que em alguns casos, o manejo dietético constitui-se como um dos principais pilares da abordagem terapêutica. A dieta e o tipo de alimento exercem uma influência direta na saúde intestinal, por isso, algumas estratégias nutricionais contribuem para a recuperação das funções do trato digestivo e para o estado geral de saúde dos pacientes.

A indicação do alimento mais indicado para cada situação deve ser realizada pelo médico-veterinário, uma vez que para cada doença ou distúrbios gastrointestinais, pode haver um alimento específico que melhor atenda às necessidades especiais do paciente. Pode ser que, dependendo do seu quadro, o gato e o cão precisem de uma restrição de gordura na dieta, como nos casos das pancreatites, ou um aumento no teor de fibras da dieta devido à um quadro de diarreia por estresse. Por isso, há no mercado, alimentos diferentes para cada caso.

O objetivo da nutrição neste caso é recuperar o estado nutricional saudável do animal, por isso, a maioria dos alimentos específicos para problemas gastrointestinais também possuem alta energia, ou seja, maior teor calórico, e concentração de nutrientes, o que permite que o animal consuma menor volume de alimento por refeição evitando a sobrecarga gástrica e intestinal.

Doenças gastrointestinais mais comuns em cães e gatos

Tanto gatos quanto cães podem sofrer de doenças gastrointestinais, dentre as mais comuns podemos observar:

  • ·Má absorção intestinal
  •  Doença inflamatória intestinal
  •  Diarreia por estresse
  • Constipação
  • Reação adversa ao alimento e intolerância alimentar
  • Colite
  • Supercrescimento bacteriano intestinal
  •  Insuficiência pancreática exócrina
  • Câncer, como adenocarcinoma, em cães e linfomas, em gatos  

Estresse pode causar problemas gastrointestinais?

O impacto do estresse na vida de cães foi por muito tempo subestimado, mas hoje sabemos que ele existe e que, além de impactar no bem estar dos pets pode levar a problemas de saúde. A manifestação do estresse pode ocorrer de forma fisiológica (aumento da frequência cardíaca), comportamental (manifestações de agressividade, agitação, incapacidade de relaxar) e sintomática (no caso de distúrbios gastrointestinais). De maneira geral, as manifestações de estresse ocorrem por influência de hormônios que são liberados como resposta a estímulos estressores e podem atuar provocando sinais gastrointestinais, como diarreia, vômito, gastrites e úlceras. Dessa forma, é preciso ficar atento aos sintomas como vômitos ou mudanças no apetite. Ao notar sinais como estes, é recomendado levar o pet ao veterinário e, uma vez diagnosticado o problema, investir em uma alimentação específica para complementar o tratamento. 

“Existem alguns desencadeadores comuns de estresse em cães como mudanças bruscas na rotina diária do pet, com exposição a novas pessoas e lugares”, explica Brana Bonder, médica Veterinária e supervisora de Assuntos Veterinários Hill’s Pet Nutrition. “Esse estresse pode causar alterações digestivas e, com o diagnóstico do profissional, é recomendado oferecer uma alimentação com todos os nutrientes necessários para a sua recuperação”, completa. 

De acordo com Brana Bonder, para aqueles animais que estão com o apetite diminuído é possível oferecer o alimento na forma úmida de forma exclusiva ou combinado com o alimento seco. ” O alimento úmido, por possuir maior teor de água, pode ser considerado mais palatável por alguns animais. Além disso, ele contribui para a hidratação do animal, fator importante já que o cão perde água pela diarreia, o que pode culminar em desidratação. Neste período de recuperação recomenda-se, também, evitar petiscos ou outros tipos de alimentos”.  

Resumindo: não ache que um vômito ou diarreia irão passar com o tempo. Eles podem ser sinais de coisas muito mais sérias. A qualquer alteração de comportamento, leve seu pet ao médico-veterinário. Como eles não reclamam, precisamos ficar atentos a cada sinal de desconforto. É nossa responsabilidade garantir qualidade de vida a eles.