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Tenho ido a inúmeras casas, fazer os atendimentos comportamentais e percebo que as pessoas não têm conseguido identificar que o cachorro sente medo. Ainda tendemos a colocar os nossos sentimentos humanos na leitura do comportamento do cão. Assim, muitas vezes sem perceber, colocamos o peludo em situações extremamente desagradáveis a ele. O que pode aumentar cada vez mais o desconforto do animal. Quando percebemos e pedimos ajuda de um profissional, pode ser tarde demais.

Existe uma técnica, dentro do adestramento, chamada de inundação. Segundo Leonardo Ogata, adestrador da Tudo de Cão, isso acontece quando o animal tem medo de um estímulo, por exemplo, e a intensidade desse estímulo é aumentada para o cão ficar exposto. E só depois do cão voltar aos níveis normais, ele é retirado. É esperado que, ao ter contato com essa situação, o animal entre em pânico, fique com muito medo, entre num estado emocional muito alterado.

Um exemplo fácil de entender. Uma pessoa que morre de medo de barata é colocada num quarto com mil baratas, por exemplo. No início, a pessoa acha que vai morrer, pode ter crise de ansiedade ou pânico. Mas ela só será retirada deste local, quando ela conseguir lidar com esses estímulos e com seu emocional. A ideia é que ela saia do quarto tranquila, sem ou com pouco medo.

Alguns profissionais utilizam essa técnica intencionalmente, quando querem resolver um problema de medo, por exemplo. Criam uma hiper-exposição ao estímulo causador do medo.

Mas o grande problema é quando essa técnica é empregada sem querer. Por exemplo num ambiente de daycare (creche de cachorro), quando o cão tem medo de cães e é inserido em um espaço cheio de cachorros, sem possibilidade de se afastar ou se esconder. Ou com cão que tem medo de fogos de artifício e fica em um local com queima de fogos, sem poder fazer nada, também é uma inundação.

“O grande problema dessa técnica é a ética. Não faz sentido submeter um animal a esse grau de sofrimento” explica Ogata. Se a técnica não for utilizada adequadamente e o animal for retirado da situação antes de atingir seus níveis normais (seja por falta de tempo adequado, seja por excesso de sofrimento), terá o efeito oposto, traumatizando ainda mais o animal. Os benefícios da utilização da técnica, quando funciona, é o resultado rápido.

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Quais as consequências de não trabalhar o medo?

O cão com medo está exposto diariamente, sentindo medo diariamente. Isso prejudica demais a qualidade de vida dele. O animal acaba sendo submetido a um estresse crônico. Há diversas pesquisas mostrando que esse tipo de estresse é super prejudicial à saúde e compromete a vida, não só de cães. Se não for feito um trabalho, com acompanhamento profissional, esses medos tendem a só piorar, e não melhorar.

Todo cão é passível de mudança?

Sim, todos! O que vai diferenciar, segundo Ogata é o conhecimento do profissional, as técnicas utilizadas, a frequência dos treinamentos, o engajamento do tutor no treinamento e a história prévia do cão.

“O treinamento pode não resolver o problema, mas irá melhorar a qualidade de vida do cachorro” alerta. Se um cão não é socializado adequadamente, na idade ideal, ele pode desenvolver medo de outros cães. Com o treinamento, mesmo feito com ele mais velho, irá melhorar a resposta à presença de outros animais. Mas não necessariamente fará com que ele chame outros cães para brincar, por exemplo. A intensão do treinamento é sempre melhorar a qualidade de vida daquele animal e daquela família.

Qual a melhor técnica?

Normalmente, os treinadores positivos buscam utilizar o contra-condicionamento e a dessensibilização. Sempre visando a diminuição do comportamento de medo ou incômodo a um estímulo. Isso para que ele lide melhor com aquele estímulo e, consequentemente, aumente a qualidade de vida dele.

Todos os cães, de todos os tipos, tamanhos, com diferentes histórias, tem ou terão medo de algum estímulo. Mas cabe ao tutor ou ao treinador identificar isso e trabalhar, para que ele lide melhor com o mundo que o cerca, e fique cada vez mais seguro e confiante.

Você percebe o que seu cão sente?

Muitas vezes os tutores não conseguem perceber ou não compreendem o estado emocional do cão. Segundo Ogata, uma das coisas a trabalhar é a linguagem corporal do cachorro. “Ensinar isso para os tutores, para que eles possam ler e compreender melhor o seu pequeno é fundamental” observa e complementa “só a partir do momento que o tutor começa a fazer o exercício de empatia é que ele vai identificar e entender a necessidade de ser trabalhado esse medo”. É um exercício que as pessoas ainda têm pouco costume.

Fique atento aos sinais!

Orelhas para trás, bocejar quando não é hora de dormir, lamber focinho quando não tem fome, desviar o olhar, se esconder, tensionar o corpo, suar pelas patas, rabo baixo e tenso, mostrar os dentes, dar a barriga e até fazer xixi podem ser sinais de medo ou desconforto. Há uma variação de cão para cão, não é uma regra. Mas é preciso compreender quem é o cachorro e como ele se comunica corporalmente, para desenvolver a empatia e evitar situações estressantes.

Um animal com medo constante pode ficar doente com mais frequência, morrer mais rápido e ter uma vida mais triste. Cabe a nós, humanos, apreender a compreendê-los. Só assim poderemos garantir a melhor vida aos nosso peludos.