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O maior resgate já feito em um canil ocorreu na última semana. Foram 1707 animais retirados de um canil na cidade de Piedade, interior de São Paulo. Ele fornecia filhotes para diversos pet shops. Apesar da crueldade que veio à tona e mexeu com milhares de pessoas, há esperança de um final feliz.

Sempre deixei claro meu posicionamento contra a venda de filhotes e a favor da adoção. Apesar disso, não julgo quem quer adquirir um animal de raça. Todavia, gostaria imensamente que todos compreendessem a importância de fazer essa aquisição junto ao canil. Assim, é possível verificar a procedência do filhote, bem como a dos pais. Além de poder perguntar ao criador sobre linhagem genética, possíveis doenças e cuidados com o animal.

Dessa forma, acredito que deveria ser proibida a venda de filhotes em pet shops. Porém, infelizmente esta prática pode ser encontrada em diversos estabelecimentos e redes. Locais que, inclusive, revendiam filhotes do canil Céu Azul, onde foram resgatados os animais.

Mogli, o chihuahua

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A médica veterinária Daniela Mello sempre foi apaixonada por chihuahua. Visitava com frequência uma das lojas da rede Petland. Mês após mês um certo filhotinho de chihuahua permanecia na vitrine, sem nenhum interessado.

Com dó do pequeno cão, Daniela não aguentou e comprou o chihuahua. Mal sabia ela que este bebê vinha do canil Céu Azul. A veterinária adiquiriu, pois sabia da idoneidade da rede e do rígido critério de homologação dos canis.

Hoje, Daniela só pensa em como estão os pais do Mogli, em como eles sofreram maus tratos para gerar seu pequeno.

Spitz Alemão com alopecia

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A tutora AM (prefere não se identificar) passou em um pet shop no Jardins, em São Paulo, e viu uma bolinha de pelos brancos. Após namorar muito o pequeno filhote de Spitz Alemão, não resistiu e comprou. Com o alto valor pago e com a credibilidade daquele pet shop, AM não imaginou o problema que iria enfrentar.

Com poucos meses, AM descobriu que seu bebê sofria de uma doença de pele sem cura, a alopecia. Foi ainda pior quando descobriu que o peludo tinha vindo do difamado canil. “Quando soube, chorei, chorei muito, porque nunca imaginei que um dia eu poderia ter financiado aquela barbárie” relata a tutora e continua “Eu fiquei muito decepcionada, sempre me preocupei com essas questões de qualidade de vida dos pais do meu cachorro, é uma sensação de profunda tristeza saber que o meu bebê vive tão bem, enquanto os pais estavam naquelas condições insalubres”.

Segundo ela, os donos do pet shop também não sabiam daquelas condições. “A dona do canil os recebia em um ambiente totalmente diferente daquele encontrado pela polícia” afirma. Lidyane, proprietária do pet shop informou que está avaliando a possibilidade de não vender mais cães em seu estabelecimento.

Perguntei se a AM indicaria este pet shop para futuras compras. Ela respondeu que prefere indicar a adoção. “Com a quantidade de cães de abrigo, tanto SRD como os de raça, eu sugeriria adoção. Mas se a pessoa quiser muito comprar, que ela investigue muito o canil e de todas as formas possíveis, para que assim como eu não caia na armadilha de financiar uma fábrica de filhote ao comprar seu companheirinho”.

Vito, o buldogue francês

Foto: Camila Canale

A Gerente de Estudos Clínicos, Camila Canale, tinha acabado de perder seu labrador, quando passou em frente a uma loja da Petz. Entrou e se apaixonou por um pug. Mas antes de tomar a decisão de compra-lo, foi para casa conversar com seu marido. Quando voltou para pegar seu novo bebê, descobriu que já tinha sido vendido. Decepcionada, olhou para um buldogue francês. Decidiu, então leva-lo. Segundo ela, os vendedores não fizeram nenhuma pergunta e muito menos alertaram sobre os problemas que poderiam ocorrer. “Foi uma compra impulsiva. Estava muito triste pela perda do meu cachorro e pensei que outro animal poderia me ajudar neste período difícil” conta.

Segundo Camila, a decisão de comprar na Petz veio de uma decepção do antigo cachorro. Apesar de buscar um criador conhecido, o animal veio muito doente e durante os 8 anos de vida dele foram feitos vários tratamentos para várias patologias, algumas associadas a fatores genéticos. “Conversei muito com meu marido sobre a origem dos próximos animais que teríamos e quando nos interessamos pelo filhote na Petz, tínhamos uma falsa segurança que ele viria de um criador responsável e que seria saudável. Só percebemos que algo estava errado depois de mais ou menos 2 meses com o filhote. Levamos ao veterinário e veio a confirmação de displasia femoral” lamenta.

O pequeno filhote não veio do canil Céu Azul, mas não por isso veio bem ou saudável. Segundo a tutora, o animal é de canil chamado Sakura Kennel, ainda em atividade.

Após as experiências ruins, Camila alerta: “Hoje sou totalmente contra a venda de animais em pet shop. A forma como ele é vendido o transforma em objeto.  Se alguém compra por impulso e não tem noção da responsabilidade de cuidar de um animal, certamente devolve ou ‘se livra’ de alguma forma. Acredito que hoje, as ONGs que fazem adoção, tenham mais cuidado com a escolha dos tutores de animais, que os pet shops que vendem”.

Steve Baker/Creative Commons

A história começa a mudar

Há 21 anos, a rede Cobasi abriu suas portas com o mote da adoção de cães e gatos. “Em 1998 fiz uma viagem aos Estados Unidos e observei a forma que eles trabalham a adoção nas lojas e achei importante trazer um projeto desse para o Brasil. Assim que retornei da viagem quis implementar as adoções nas lojas e criei o primeiro centro de adoções na Cobasi Villa Lobos, primeiro dentro de um pet shop” conta Ricardo Nassar, Sócio Diretor da Cobasi.

Atualmente, a Cobasi tem parceria com 27 ONGs de proteção animal, as quais organizam eventos em 28 lojas. Há projeto de ainda ampliar as unidades com eventos de adoção. “Nesses 21 anos de centros de adoções já conseguimos lares para mais de 30 mil animais” contabiliza Ricardo.

Ontem, através das redes sociais, o presidente da rede Petz, Sérgio Zimerman, informou que a rede não irá mais comercializar cães e gatos. Uma decisão tomada tardiamente. Mas dizem quem melhor tarde do que nunca, não é?! Apesar de concorrentes, o sócio da Cobasi apoiou a atitude da Petz “É uma decisão assertiva, seguindo o caminho que a Cobasi tomou há alguns anos de não comercializar esses animais e promover a adoção”. Afinal, não há concorrência quando o assunto é o bem-estar dos animais.

Mas o que gerou tal mudança da Petz? Segundo o próprio presidente, a medida foi tomada após, na semana passada, um dos canis que mantinham relação com a Petz sofrer denúncias de maus-tratos. “Isso nos abalou muito. Ao nos perguntarmos sobre a possibilidade desse tipo de episódio vir a se repetir, chegamos à conclusão que o nosso processo era 99% seguro. Ocorre que 99% não são 100%. E se há a menor possibilidade de isso acontecer de novo, então não serve”, afirma o presidente da Petz, Sergio Zimerman.

Tal atitude foi cobrada durante cinco anos pela OSCIP Ampara Animal. Mesmo levando profissionais, apontando outras grandes redes, brasileiras e americanas, que não vendem animais, o presidente era irredutível. Precisou acontecimento amplamente divulgado para tomar tal atitude.

A venda de filhotes era realizada desde a inauguração da empresa, há 16 anos, com a preocupação, segundo eles, de garantir o bem-estar animal e combater o comércio irregular. “A maneira como cães e gatos eram comercializados nas ruas nos incomodava muito. Fosse em porta-malas de carros, em feiras em praças públicas ou em postos de gasolina na beira de estrada. Decidimos então trazer essa comercialização para dentro das nossas lojas para que houvesse um processo mais controlado e mais ético”, avalia Zimerman.

Talvez a força das redes sociais, sugerindo um possível boicote à rede possa ter ajudado para tomar a decisão. Mas o que realmente me preocupa é o fato de ainda haver cães e gatos em lojas para venda. Sérgio afirma que o valor arrecadado com as vendas desses animais irá para as ONGs. Temos que ficar de olho.

Infelizmente nem todos seguem esse caminho. A Petland ainda está super atrasada e acredita que não adianta parar de vender filhotes. Segundo eles, isso vai abrir espaço para aumentar a clandestinidade e práticas irregulares no setor. “Estamos avaliando os possíveis cenários e desdobramentos, antes de tomar qualquer decisão” pondera o porta voz da empresa.

Se só a venda não fosse algo atrasado, a fala seguinte mostra despreparo, desconhecimento e propagação de mitos: “Nós somos a favor da posse responsável. Algumas práticas não cessam apenas com a proibição. A proibição gera clandestinidade e falta de fiscalização. Há famílias que preferem animais com comportamentos e tamanhos pré-definidos. Falando de bem-estar animal, é de nossa responsabilidade que o futuro tutor adquira o filhote adequado para o seu estilo de vida. Como por exemplo, um cachorro de porte pequeno para um apartamento pequeno”.

Mas a rede também investe em adoção. Segundo eles, desde o início de suas operações no Brasil, a Petland concentrou esforços para promover a posse consciente de animais e hoje atua em algumas frentes sociais, que vão além de eventos de adoção. Como promover mais de 150 eventos de adoção por ano, com parcerias ativas com 23 ONGs; através do programa sócio-colaborador & ONG Aila, franqueadora e franqueados contribuem mensalmente para ONGs; todos os produtos da marca própria, a PET CHOICE, têm parte das vendas revertida à doações para ONGs parceiras; SRDay: todo último sábado do mês de outubro, o valor arrecadado em royalties dass lojas é destinado a três ONG’s parceiras; e o programa voluntários por 1 dia: dia dedicado a visitar ONG’s para levar um pouco de amor e carinho aos animais abandonados.

Rex Sorgatz/Creative Commons

Em pleno século XXI, não podemos permitir que grandes redes vendam vidas, como quem vende brinquedos ou roupinhas. Ainda não temos lei sobre venda de filhotes em loja ou pela internet. Mas a ação da população pode ser anterior a isso. Se não comprarmos mais filhotes pela internet ou em pet shops, eles pararão de ser vendidos. Por isso, converse com pessoas próximas: se eles quiserem comprar animais, que façam diretamente com o canil ou busquem a adoção. Quanto mais informação a população tiver, maior será o bem-estar dos nossos peludos.