cachorro no carrinho de supermercado

Alimentaçaõ saudável está no rótulo, não na propaganda – Mike Mozart/Creative Commons

Com o crescimento do mercado pet, muitas empresas têm voltados os olhos para a indústria alimentícia. Basta ir ao pet shop para encontrarmos diferentes marcas de alimentação pronta, seja ração, alimento úmido, alimentação natural ou petisco. Mas você sabe qual a diferença entre eles? Sabe o que levar em consideração na hora de escolher uma alimentação saudável? E se escolher a mais barata, quais os problemas?

Para sanar todas as minhas dúvidas (que imagino que sejam as suas também), conversei com duas médicas-veterinárias nutricionistas. Partiu polêmica!

O que é uma alimentação saudável?

Segundo Mariane Ernandes, médica-veterinária nutricionista da Balance, nutrição é fornecer todos os nutrientes essenciais, uma alimentação balanceada e completa, atendendo aos parâmetros necessários nutricionais dos pets e de cada espécie.

Quais os problemas de escolher o produtos pelo preço?

Alimentos de baixa qualidade nutricional podem apresentar déficit ou excesso de nutrientes que serão prejudiciais à saúde do pet, levando principalmente a problemas gastrointestinais dermatológicos e endócrinos, como comenta a médica-veterinária nutricionista Bruna Moreno Damiani.

O grande problema é que esses problemas, muitas vezes, só serão observados a longo prazo. “Quando não há quantidade de cálcio adequado, podemos observar o raio-x mais radio lúcido, com ossos menos densos. Também é possível que um animal desnutrido tenha problemas de pele, pelagem mais opaca, pele mais ressecada, quando há uma escassez de ácidos graxos, por exemplo” aponta Mariane.

Proteína de alta qualidade

A propaganda de diversas marcas é a quantidade de proteína que há na ração. Mas será que só isso é suficiente?

Primeiro é preciso entender que há diversos tipos de proteína, como a de origem animal e a de origem vegetal. Se quebrarmos uma molécula de proteína, encontraremos diversos aminoácidos. E são esses nutrientes (os aminoácidos), que fazem total diferença na vida de cães e gatos.

Segundo Bruna, considera-se como proteína de alta qualidade, aquela que apresenta boa digestibilidade, quantidades adequadas de aminoácidos essenciais e de nitrogênio total.  “A digestibilidade de uma proteína é a mensuração da porcentagem da proteína dietética que é hidrolisada e absorvida pelo organismo na forma de aminoácidos ou outro composto nitrogenado. Quanto maior a digestibilidade da proteína dietética, menor a quantidade necessária para satisfazer as necessidades nutricionais” explica.

Assim, o mais importante não é a quantidade de proteína, mas sim a capacidade de absorção dela pelo organismo do animal. Uma dica é olhar a quantidade e cheiro das fezes. Quanto mais volume e cheiro mais fétido, menor foi a absorção da proteína.

As proteínas de origem animal mais indicadas são carne de frango, carne bovina, suína, peixes, ovos e farinhas de carne.

Mariane explica que há alguns anos, acreditava-se que a alta quantidade de proteína causava problemas renais, mas isso é um mito. “A alta quantidade de proteína ajuda também na palatabilidade do alimento” aponta.

Na sua próxima compra de alimento para seu pet, não olhe apenas o nível de garantia, mas os ingredientes. Mariane explica que há muita diferença entre farinha de vísceras de aves e farinha de carne e ossos, por exemplo. “Quanto maior o teor de minerais, como ossos, menor a digestibilidade e menor a absorção ao animal. Proteínas vegetais, como glúten de milho, proteína de soja, farinha de torresmo, glúten de trigo ajudam no equilíbrio para digestibilidade. Mas a composição com menos minerais, sem cálcio, melhora a digestibilidade” alerta.

Qual a relação entre o alimento e o bem-estar de cães e gatos?

No caso de humanos, já é muito bem estabelecido o quanto uma dieta saudável e rica em nutrientes pode ajudar inclusive na saúde mental. Será que nos animais de estimação essa equação se repete.

Mariane explica que os estudos sobre a relação entre a nutrição e o comportamento em cães e gatos são recentes, com pouca literatura. Mas que a alimentação (suprir as necessidades nutricionais com alimento completo e balanceado) é um dos pilares da garantia de bem-estar animal.

Mas alguns nutrientes especificamente têm se sobressaído quando o assunto é saúde mental em pets.

Segundo Mariane, os ácidos graxos são importantes para formação da função cognitiva. Já os carboidratos e fibras, na sensação de saciedade, o que está relacionado com animais mais calmos, que dormem melhor. “O teor de proteína muito alto, por exemplo, pode ser ruim para animais com comportamento mais agressivos. Diminuindo o teor de proteína, pode diminuir o comportamento de agressividade” atenta-se.

Para os idosos, que têm uma chance maior a ter problemas degenerativos cognitivos, a vitamina C e E são ótimos antioxidantes, o que ajuda a diminuir a formação de radicais livres e retarda o envelhecimento cerebral, como conta Mariane.

Mas a palavra do momento é triptofano.

cachorro dentro do saco de ração

A saúde mental começa pela boca – Dagny Gromer/Creative Commons

Triptofano: verdades e mitos

Mariane aponta que muitos estudos foram conduzidos com ratos, cavalos e macacos, mostrando que o triptofano pode diminuir ansiedade e comportamentos repetitivos. “Para cães, existem alguns estudos, mas ainda não se sabe ao certo da dose exata e nem o tempo para oferecer o fármaco a fim de observar as diferenças” relata.

Mas quem é esse tal de triptofano?

Segundo Bruna, apesar do mecanismo pelo qual o triptofano pode interagir com a resposta ao estresse não ser totalmente elucidado, sabe-se que está envolvido com a produção de serotonina no cérebro.  A serotonina funciona como neurotransmissor inibitório do sistema nervoso central (SNC)e desenvolve papel fundamental na regulação de processos comportamentais e fisiológicos dos animais, tais como regulação de temperatura, apetite, regulação das funções gastrintestinais, hemodinâmica, secreção de hormônios do estresse, imunidade, regulação do ritmo circadiano, comportamento agressivo e sexual, sensibilidade à dor, humor e bem-estar.

A serotonina não é capaz de atravessar a barreira sanguínea do cérebro, portanto, os seus efeitos dentro do sistema nervoso central dependem da transferência de triptofano por entre essa barreira. Uma vez dentro do SNC, o triptofano é facilmente convertido a serotonina. “Em teoria, o aumento das concentrações de triptofano adicionado à dieta pode ser usado como estratégia nutricional para controlar o estresse e comportamentos agressivos, elevando os níveis circulantes de serotonina e melatonina no organismo” relata Bruna.

A médica-veterinária ainda aponta que para que a suplementação de triptofano seja modeladora da resposta ao estresse e da sensibilidade dos animais, são necessárias altas doses farmacológicas, visto que sua suplementação na dieta em doses que apenas atendam as exigências nutricionais ocasiona efeitos mais discretos ou inexistentes.

Ou seja, apesar do tal do triptofano estar na moda, talvez ele não seja a solução para garantir a saúde mental em cães e gatos e nem alívio do estresse. O caminho, então, é continuarmos com o nosso bom e velho enriquecimento ambiental, como passeios diários, dispositivos alimentares (como os brinquedos recheáveis), mordedores, momentos de descanso e interações sociais.

Ah, mas tem um gran finale!

Sabia que a saúde do intestino afeta diretamente o bem-estar?

Segundo Bruna, a microbiota intestinal regula a síntese de neurotransmissores por alteração de níveis de precursores, como o nosso querido triptofano, que é precursor da serotonina. “A síntese e liberação dos principais neurotransmissores por bactérias intestinais já foi reportada, incluindo de ácido gama-aminobutírico, noradrenalina, dopamina e acetilcolina, importantes na saúde mental” conta.

E continua “os eixos cérebro-intestino-microbiota se comunicam através de vias neuroendócrinas, neuroimunes, do sistema nervoso. Há um entendimento crescente de que as comunicações ocorrem de forma bidirecional, com a microbiota influenciando o funcionamento do sistema nervoso central, que por sua vez modifica a composição da microbiota pelos seus efeitos no sistema gastrointestinal”.

Em humanos, diferentes evidências do envolvimento da disbiose (desequilíbrio da população bacteriana intestinal) em patologias neuropsiquiátricas têm sido relatadas, por exemplo em esquizofrenia, transtorno bipolar, depressão, dentre outras.

A disbiose também pode ser observada em pets estressados, devido a essa via de mão dupla entre intestino e cérebro, como conta Mariane. Assim, oferecer os nutrientes para manter a microbiota equilibrada é elevar bem-estar, através de alimentação balanceada. Tudo isso para manter a microbiota em equilíbrio a fim de evitar o crescimento de bactérias patogênicas.