cachorro em abrigo

Levar em consideração o bem-estar emocional do cão de abrigo é fundamental – bullcitydogs/Creative Commons

Idealizado pela psicóloga e especialista em comportamento animal, Carolina Jardim, o Projeto Abrigo Educativo surgiu a partir do trabalho iniciado no Instituto Luisa Mell, em agosto de 2020. “Criei esse nome com o intuito de mostrar que, mais do que garantir comida, limpeza e todos os cuidados básicos com excelente qualidade aos cães, poderíamos ir além, trazendo uma nova função para o abrigo, com o papel de garantir também o bem-estar emocional e comportamental dos cães” explica Carolina.

Não basta treinar os cães e ir embora. O Projeto começa treinando e formando toda a equipe (desde coordenação até tratadores e responsáveis pela limpeza). Tudo isso para começar a construir uma linguagem comum.

Segundo Carolina, os benefícios desse tipo de projeto são inúmeros. “Atuamos o tempo todo em duas frentes dentro do projeto, sendo uma delas a formação básica e continuada de toda a equipe, e a segunda frente sendo o trabalho direto com os cães com maiores problemas de comportamento. O resultado acabou sendo incrível, pois todos passaram a perceber a importância do que eu chamo de manejo positivo, dentro do abrigo” conta.

As mudanças não são poucas! O abrigo que quiser receber o treinamento precisa estar disposto a readequar rotina e espaço para atender todos os requisitos, para oferecer maior bem-estar aos animais. “Todas as guias unificadas, que eram utilizadas para manejar os cães, foram retiradas. A visão que os cães tinham de um canil para o outro e para a área externa foi retirada. Era isso que gerava um latido excessivo, a ponto de prejudicar até mesmo o desempenho dos funcionários” aponta Carolina.

Também foi criado um novo setor de comportamento dentro do abrigo, com um responsável. O profissional está em formação constante diretamente com a equipe da Carolina.

Resultado do Projeto

Segundo Carolina, dos quase 50 cães que já passaram pelo projeto, com atendimento direto, mais de 70% foram adotados (e não foram devolvidos). A educação básica que trabalhamos dentro do projeto, em que o cão aprende a sentar, esperar o que quer, vir quando chamado, colocar uma peitoral para passear, dentre outras coisas, fez com que muitos cães que foram adotados, não fossem devolvidos. Porque esse é um dos maiores problemas que muitos abrigos enfrentam, a devolução, mais ainda do que a não adoção.

Pensando nisso, uma das frentes do projeto é a reestruturação do Manual do Adotante, assim como vídeos para informar sobre detalhes importantes para serem cuidados a partir da decisão da adoção. “A própria Diretoria do Instituto passou a reconhecer a importância do trabalho comportamental como prioridade para o bem-estar dos cães” confidencia.

Não estou negando a importância dos abrigos, ONGs, lares temporários e afins. Mas não posso fechar os olhos para a quantidade de cães resgatados com problemas comportamentais. Ou, em alguns casos, desenvolvem questões no próprio abrigo. Mesmo com ótimas intenções, nem sempre o responsável pelos animais compreende sobre comportamento canino.

Na maioria dos casos, os cães com questões comportamentais ou comportamentos indesejados acabam sendo doados e, muitas vezes, devolvidos. Nem mesmo o tutor está preparado para lidar com alguns problemas de comportamento.

O mundo ideal

O sonho de todos os protetores é não ter mais cães abandonados. O sonho dos comportamentalistas é que os cães resgatados tenham chance de serem adotados e não devolvidos por problemas comportamentais. O projeto vem nessa linha.

Segundo Carolina, o intuito do projeto é replicá-lo em diversos projetos, ONGs, abrigos e lares temporários. “ Queremos ser referência, para que outros abrigos percebam o quanto o bem-estar emocional, mental e comportamental precisa ser garantido com cães de abrigo como parte das necessidades básicas e fundamentais” alerta.

O ideal seria que todo cão fosse preparado para uma adoção. Infelizmente, muitas pessoas quando pensam em adotar um cachorro, não tem a menor ideia do que vão encontrar. Muitas delas, principalmente na pandemia, buscaram suprir no cão as próprias carências afetivas. Sem pensar nas consequências e implicações de ter um peludo em casa.

Mas nem tudo são flores. Apesar de parecer algo caro, não é a questão financeira que pesa nessa hora. Carolina conta que é a cultura institucional de muitos espaços que já está arraigada e as pessoas têm dificuldade em se abrir para pensar as coisas de uma nova forma.

Para mostrar a importância de iniciativas como essa, está sendo feita uma série de vídeos contando histórias de cães e as mudanças de comportamento.

Se você conhece, trabalha ou resgata cães, aqui vai o conselho da Carolina: “Busque informação de qualidade para que percebam a necessidade de investir em bem-estar emocional e comportamental, manejo educativo e treinamento dos cães sem o uso de ferramentas que gerem dor ou medo. Há muita informação gratuita de qualidade e estamos produzindo novos materiais exatamente com esse intuito” finaliza.

O bem-estar dos animais é dever de todos os seres humanos. Independentemente se for um tutor temporário ou permanente. Um problema não atendido ou ignorado em um grupo pode aumentar e se tornar cada vez pior. Quem mais sofre com tudo isso é o cão. Não meça esforços para oferecer maior qualidade de vida a ele, onde quer que ele esteja.