cachorro grande passeando

A ferramenta não pode ser mais importante que o ser humano – eltpics/Creative Commons

Em diversos atendimentos que eu faço, há alguma queixa relacionada ao passeio. Em 90% dos casos, o equipamento não é o ideal para aquele cachorro. Muitos tutores buscam a solução do problema na ferramenta e não na condução ou treinamento.

Quando eu escrevi sobre os malefícios de usar enforcador. Veja aqui a matéria. Uma das críticas que mais li foi sobre como conduzir cães de raças grandes, se não com o enforcador.

O uso do enforcador está relacionado ao tutor ou condutor. Quando este não tem técnica suficiente para ensinar o cão a ser conduzido e passear tranquilamente, usa algo que lhe garanta soberania ao animal.

Existe um mito de que o cão de raça de grande porte seja bravo, agressivo, reativo e intempestivo. Se o animal é assim, ao passear com ele, estou colocando em cheque seu bem-estar. E aí vem a primeira questão. Problemas de comportamento não devem ser resolvidos no passeio, mas dentro de casa.

Minha mãe sempre me ensinou que costume de casa vai à praça. Se o cão não tem estímulo algum dentro de casa, se não treina se não tem espaço para expressar seus comportamentos naturais, o passeio é a única oportunidade de ter tudo isso. Obviamente, coisa boa não vai dar!

Outra reclamação dos tutores é sobre segurança para o cão não fugir. Assim, colocam no enforcador a solução para evitar as fugas. Já que se o cachorro tentar sair, recebe um tranco no pescoço e para.

Qual a melhor coleira?

A ferramenta mais segura e confortável, na minha opinião, é a peitoral em H com regulagem no peito e no pescoço. Se bem colocada, dificulta bastante as fugas. Se o cão tentar tirar a pata, ainda tem a parte do pescoço. E vice-versa.

O que eu percebo é a relutância de alguns profissionais e tutores em usar peitoral por “dar mais trabalho”. Realmente o cão terá mais força para puxar. Mas para isso, é preciso fazer um treino para que ele não escolha puxar. Qualquer estímulo que passe na rua não deve ser forte o suficiente para que ele queira sair desembestado atrás.

Qual a melhor guia para passear com cachorro?

A melhor guia é a longa. Não estou falando daquela retrátil. Mas a de tecido com mais de dois metros de comprimento. A guia longa pode ser encurtada. Mas a guia curta não pode ser alongada.

Tudo deve ser opcional ao cão, inclusive andar ao nosso lado. Muitos cães se tornam mais reativos no passeio exatamente por não terem a opção de fuga. Quando um estímulo aversivo chega muito perto, o tutor encurta a guia, deixando o cachorro somente com a opção de ataque.

Faça um teste: use uma guia longa com seu cachorro e veja a diferença.

Ah, a guia deve andar frouxa e não tensa. Isso também fará toda a diferença.

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A guia deve estar frouxa para que o cachorro se sinta mais confortável – Valerie Everett/Creative Commons

Como treinar o cachorro a passear tranquilo?

O treino do passeio não começa na rua, mas dentro de casa. Na rua, há inúmeros estímulos que podem desviar a atenção do cão se não bem ensinado. Por isso, comece colocando uma coleira confortável no cão. Não obrigue e nem force o cão a colocar. Chame-o até você e faça ele colocar a cabeça na coleira e não o contrário. Só isso fará uma enorme diferença. O respeito ao cão vai muito além de não mau tratá-lo.

Veja este vídeo sobre como fazer o treino para colocar a coleira.

Já com a coleira, devemos começar a associar o uso com coisas positivas, como brincadeiras, comida, etc. Quando o cachorro já estiver confortável, evoluímos para colocação da guia. Deixe ela solta e brinque bastante com o cão. Jamais, em hipótese alguma, puxe o cão pela guia ou coleira.

Aos poucos, comece a treinar o passeio dentro de casa, usando a guia. Ofereça petisco ou a própria ração para recompensar quando ele estiver andando ao seu lado.

Nada deve ser obrigatório. Andar ao lado, não puxar e ficar relaxado deve ser uma opção para o cão. Não uma obrigação.

Obviamente que isso leva um tempo e esforço. Por isso mesmo que a ferramenta acaba sendo escolhida para “facilitar o trabalho”. Mas colocando em cheque o bem-estar do cachorro.

Quem educa não é a ferramenta, mas o ser humano. Não podemos terceirizar o treino do cachorro para um equipamento. Afinal, mesmo com o equipamento mais seguro, pode haver falha. Como lidar com o cão nesse momento? Ele irá lhe atender? Somente se for treinado para isso.