Leo Rodman/Creative Commons

Optar por adotar um animal é uma das atitudes mais importantes para diminuir o número exorbitante de cães e gatos abandonados e sujeitos a maus tratos em todo o país. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), existem mais de 30 milhões de animais abandonados vivendo nas ruas do Brasil. Destes, mais de 20 milhões são cachorros. Porém, é crucial que a adoção seja responsável e ofereça os cuidados básicos e fundamentais para assegurar o bem-estar do animal e também dos membros da família.

A questão é: o brasileiro está pronto para a adoção? E vou ainda mais a fundo: as ONGs e protetores estão prontos para doarem seus animais?

O fato da adoção ser uma caixinha de surpresa, faz com que os futuros tutores deem muitos passos atrás. “Será que vai ficar grande?”, “solta muito pelo?”, “Já tem alguma doença pré-existente?” e “ele vai se adaptar na minha casa?” são as maiores dúvidas de quem adota.

Muitas dessas perguntas são impossíveis de serem respondidas por quem está doando. São tantos cães nas ONGs ou nos abrigos, que fica quase impossível de saber as características de todos que estão ali para adoção.

Você pode ir a uma feirinha, pegar um cão ou gato no colo, perceber o quão dócil é, levar para casa e descobrir o demônio da Tasmânia. E aí, vai devolver?!

bulldogmum/Creative Commons

CASO 1

Nos últimos dois dias, atendi casos exatamente assim. Primeiro foi uma pretona, parecida com uma labradora. Muito medrosa, ela já tinha tentado fugir. Suas tutoras, com muita paciência, me chamaram, para oferecer melhor qualidade de vida a pequena. Para conseguir trabalhar todo o medo, precisava entender um pouco da história dela.

Assim, liguei para a ONG, onde ela foi adotada.

“Oi, vocês sabem alguma informação sobre o resgate da fulaninha?” perguntei.

“Oi Luiza, infelizmente não temos nenhuma informação, nem como ela foi resgatada.” Respondeu a responsável pela ONG.

Antes de ser adotada, a cachorrinha não havia apresentado esse tipo de comportamento fujão. As tutoras não imaginavam que lidariam com esse tipo de situação. Mas nem por isso esmoreceram. Estão firmes, fortes e felizes com o tratamento e a melhora da peluda.

CASO 2

Outra vez fui chamada. Mais um viralatinha lindo. Dessa vez, bem branquinho, com os pelos todos ouriçados. Seu problema? Medo extremo, com pânico de cães, caminhões e pessoas diferentes durante o passeio.

Perguntei se a pessoa que doou o cão contou sobre tudo isso. Recebi um lindo e sonoro “NÃO!”. Simplesmente chegou lá na casa com o cachorro com duas coleiras. Os novos tutores estranharam, mas não questionaram.

Quando perguntei sobre informações de resgate, os tutores informaram que o cãozinho deles foi achado sem querer na casa da recém falecida caseira da ONG. “Eles nem sabiam da existência desse cachorro” responderam.

Depois de descoberto um problema cervical, sem chance de cura, os tutores me buscaram para auxiliar nesta nova fase. Detalhe: o problema cervical é anterior à adoção. Mas ninguém contou a eles.

Assim como no caso 1, os tutores do branquinho estão se dedicando ao máximo e empenhados na melhora do bichinho: física e comportamentalmente.

CASO 3

Mais um chamado. Dessa vez, não foi o tutor que me ligou, mas a protetora. Ela pediu ajuda para o cãozinho recém adotado. Ao chegar na casa, descubro que aquele já era o terceiro lar do cão. E a minha maior surpresa: o cão iria ser devolvido (pela quarta vez) depois de três dias.

Perguntei ao adotante se ele sabia que o cão era daquele jeito antes de adotar. Ele disse que não. Em nenhum momento explicaram para ele os medos e problemas de ansiedade severos do cão.

Então, perguntei se ele já tinha passado por avaliação veterinária em algum momento. Mais uma vez, uma resposta negativa.

Depois de duas horas de consulta, expliquei ao então tutor, os problemas que poderiam ainda aumentar, caso ele fosse devolvido mais uma vez. Comovido, ele me disse que não tinha mais estrutura psicológica para lidar com tanto sofrimento do animal (realmente o caso é bem grave). Mas que iria avaliar mais uma vez a situação.

CASO 4

Fui procurada por uma família, louca para adotar um animal. Quando encontrei exatamente o perfil que buscavam, eles ficaram com receio. A possibilidade de ter um cão de raça, fofinho, com o comportamento, tamanho, pelos e afins, mais ou menos determinado, chamou mais a atenção. Assim, eles decidiram comprar, ao invés de adotar.

RESUMO

bulldogmum/Creative Commons

Independentemente de quem estava certo ou errado, sem juízo de valor ou julgamento; todas essas histórias e transtornos poderiam ser evitados. Não saber o perfil de cada animal a ser doado, dificulta muito a adoção e facilita a possibilidade de devolução.

Graças a muito trabalho das ONGs e protetores, os futuros adotantes estão cada dia mais dispostos a lidar com o que vier pela frente.

Mas eu não estava preparada para lidar com um animal com tantos problemas clínicos, ao adotar a Aurora (minha chihuahua). Questionei a protetora sobre a saúde da cachorrinha. Ela foi categórica a me dizer, que já tinha passado por avaliação e estava tudo bem. Óbvio que não vou devolver a cachorrinha. Ainda mais agora que descobri o quão ela precisa de mim. Mas é extremamente frustrante esperar algo e descobrir que a necessidade é completamente outra.

Em nenhum momento quero levantar a bandeira contra a adoção. Muito pelo contrário. Cada dia mais sou a favor dela. Tudo isso prova o quanto tem cães e gatos por aí precisando de adotantes empenhados e de coração aberto para o que vier.

COMO RESOLVER?

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Pensando em tudo isso, resolvi escrever dicas para minimizar a surpresa ou frustração com o novo bichinho.

  • Questione ao máximo a ONG, protetora ou quem estiver doando o animal. Pergunte se já passou por avaliação de veterinário, peça o contato desse veterinário, pergunte sobre a relação do peludo com outros animais. Pergunte sobre medos e como ele chegou a ONG.
  • Peça a carteira de vacinação, bem como os comprovantes de vermifugação e controle de ectoparasitas (pulgas e carrapatos). Se não tiver. Providencie o quanto antes.
  • Verifique se o animal é castrado. Se não for, peça para ser feita a castração antes de adotá-lo.
  • Além de pegar o animal no colo, peça para dar uma volta com o animal, acompanhado de alguém da ONG. Ou combine de encontrar em um parque ou mesmo na sua casa, para ver como ele se comporta.
  • Avalie o quão disposto você está para lidar com possíveis questões comportamentais ou clínicas, que possam aparecer na sua casa.
  • Busque ajuda de profissionais do comportamento, tanto na hora de adotar, quando na adaptação deste novo ser na sua casa.
  • Não haja por impulso! Mesmo sendo o cãozinho mais lindo, pense e repense se ele cabe na sua rotina e disponibilidade.
  • Mesmo após a adoção, mantenha contato com quem doou o pequeno para você.

Quem sabe dessa forma, consigamos exigir que todas as ONGs e protetores sigam o mesmo protocolo, visando o bem-estar dos animais. Além de estimularmos novas adoções super hiper conscientes, com o mínimo de frustração.

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