cachorro deitado

Adoção impulsiva pode facilitar abandono – Wayne S. Grazio/Creative Commons

Com a ausência de feiras de adoções e eventos para facilitar a adoção de cães e gatos, as ONGs e protetores animais precisaram se reinventar. Muitos relatam o aumento de resgates durante a quarentena, mas a diminuição nas adoções. Porém, outros apontam um aumento na procura, sem necessariamente finalizar em uma adoção.

Na semana passada, fui atender um cachorrinho super fofo, recém adotado por um casal. Eles planejavam ter um cão há muito tempo. Viram no isolamento social o momento perfeito para se dedicarem ao pequeno. Na consulta comportamental, já surgiram dúvidas sobre como já ensinar o cão a ficar sozinho, quando voltarem a trabalhar fora.

Quisera eu que todos os tutores estivessem com essa mesma preocupação ou visão. Não apenas de avaliar a fundo a opção de ter um animal, mas já vislumbrar como seria a melhor adaptação do cão para o retorno a rotina fora da quarentena.

Conversando com os protetores e responsáveis por ONGs, percebi um mesmo cenário: uma urgência enorme para pegar o animal. Creio que o isolamento social e a carência podem se tornar os motivos principais da busca tão angustiada por ter um animal em casa. Além de ser uma distração, uma companhia, também é uma novidade, que vem faltando na nossa rotina doméstica.

Com a palavra, a psicóloga

Para entender melhor sobre o papel do animal neste momento de isolamento, busquei a psicóloga Raquel Campos. Ela trabalha com intervenção assistida por animais e é uma das fundadoras do projeto Ser com Bicho.

Rachel apontou que há alguns estudos sobre essa relação entre humanos e animais, nos quais os animais acabam sendo seres de substituição. “Eles passaram a ocupar alguns espaços de falta que são próprios dos seres humanos, e supri o espaço de falta de uma forma passiva” aponta. Segundo Raquel, o cão, por exemplo, adota esse padrão de vinculação das pessoas. Junto, vem um ser com ausência de julgamento, com um afeto quase que incondicional, e que permite que o ser humano consiga demonstrar afeto na hora que deseja, ao fazer carinho.

Apesar de um cenário tão lindo e romântico, a psicóloga é categórica ao afirmar: “essa é uma relação que deve ser olhada com muito cuidado. Sobre o papel que o animal tem na vida de uma pessoa”.

Segundo Raquel, nesse contexto de pandemia, quando a gente se distancia das pessoas, das nossas atividades rotineiras e do nosso cotidiano de uma forma geral, por conta do isolamento social, a necessidade de ocupar faltas fica mais evidente. Isso porque eram atendidas anteriormente por outras coisas, pessoas e situações.

Diante de todo esse quadro, é comum observarmos pessoas optando por trazer um animal de estimação para dentro de casa, nessa perspectiva de ocupar espaços. “O papel do animal precisa ser visto como terapêutico para a gente, mas também oferecer uma relação saudável para o animal. Devemos respeitar os espaços de os limites. Lembrando sempre que eles são cachorro e gatos, com necessidades específicas. Ao pensar nisso, muito provavelmente, se evitaria a possibilidade de abandono ou de adoção impulsiva” reflete Rachel.

cachorro de chapéu, sentado com homem

Lembrar das necessidades de cada espécie é fundamental – drager meurtant/Creative Commons

O receio da alta taxa de abandono após a quarentena é uma preocupação para diversos protetores e ONGs de proteção animal. Alguns, como o caso da funcionária pública e protetora Maria Aparecida Faria de Oliveira, do projeto Cat Felinos no Rio de Janeiro, aumentaram os critérios no momento da entrevista pré-adoção. “Percebemos uma urgência muito grande do adotante. Quando falamos que o animal precisa passar por exames e/ou castração, muitas vezes ele desiste da adoção” explica.

Aumento das adoções X possibilidade de abandono

No projeto Recanto Bicho Feliz, houve um grande aumento de adoções comparado a meses e até anos anteriores. Desde o início da quarentena até hoje, já foram 305 animais doados. “Nós conversamos muito sobre o atual momento, para ão ser uma adoção de impulso. Mas temos que acreditar que vai dar certo, né?!” fala Marcela Rohde, responsável pelo projeto.

O mesmo aconteceu no abrigo Chácara da Dolores. Alexandra Gimenez, diretora da AmahVet Clínica Veterinária e voluntária do Abrigo, aponta que o crescimento chegou a 30% em comparação ao ano anterior. Em contrapartida, nesse abrigo, os resgates diminuíram. “O medo é aumentar o abandono após a quarentena. Quando essas pessoas que estão adotando voltarem à vida normal, podem haver abandonos. Por isso as entrevistas têm sido mais longas” explica.

cachorro andando na rua

abandono é crime! Visavis.. – Creative Commons

A Médica-Veterinária e Pesquisadora da Mars Petcare, Angela Hughes, destaca que o lado bom da adoção neste momento de quarentena é a oportunidade de pet e tutor criarem um vínculo maior, que será benéfico para ambos. “Agora, em casa, temos a oportunidade de entender melhor as expressões faciais e a linguagem corporal de nossos animais de estimação. Portanto, use esse tempo para observar e aprender mais sobre eles. Além disso, há mais tempo para colher os benefícios de cuidar e acariciá-los, o que ajuda a aliviar sentimentos negativos como o estresse e a ansiedade”, afirma.

Porém, antes de tomar a decisão de trazer um novo membro à família, vale lembrar que os animais necessitam de cuidados diários. Há quem esqueça que cuidar de pets exige investimento, tempo para oferecer carinho, levá-los para passear, ao Médico-Veterinário, limpar as fezes e xixi e, muitas vezes, são estes os motivos que geram a devolução de animais adotados aos abrigos. Ou seja, ter um pet é um compromisso de longa data.

“O abandono de animais não se justifica em nenhuma hipótese. Quando alguém abandona seu animal de estimação sob a desculpa do novo coronavírus que nos acomete, na verdade está enxergando uma parte muito pequena do problema que causa”, diz o médico-veterinário Alexandre Merlo, Gerente Técnico e de Pesquisa Aplicada de Animais de Companhia da Zoetis.

O especialista lembra que um animal que fica na rua à própria sorte vai precisar buscar comida, estará livre de cuidados e aí pode sim transmitir doenças. “É o caso das zoonoses, como a leptospirose, a giardíase e a raiva, por exemplo”, informa. “Além disso, um animal solto pode ainda gerar um acidente de trânsito”, alerta.

Pensando na posse responsável para uma tomada de decisão consciente de se ter um pet, aqui vão algumas dicas que podem ajudar:

  1. Pesquise sobre o animal e veja se ele é compatível com o seu estilo de vida e perfil familiar.
  2. Os filhotes requerem cuidados veterinários mais frequentes e precisam de uma quantidade significativa maior de atenção em comparação com um cão ou gato adulto. Ao voltar para sua rotina normal, você terá o tempo e a disposição que um filhote necessita? Se a resposta for não, talvez um animal mais maduro seja o seu companheiro ideal.
  3. Considere que o tempo médio de vida de um animal é de 12 anos. Pergunte à família se todos estão de acordo, se há recursos necessários para mantê-lo e verifique quem cuidará dele nas férias ou em feriados prolongados. Não haja por impulso.
  4. Caso já tenha outros cães em casa, apresente o novo morador de forma gradual e fique sempre atento à convivência.
  5. Mantenha o pet sempre dentro de casa, jamais solto na rua. E na hora do passeio, leve-o com uma coleira que contenha a plaquinha de identificação.
  6. Todo pet precisa de alimentação de qualidade, que leve em conta suas necessidades, e muita água fresca e limpa.  Seu bem-estar também depende de uma boa nutrição.
  7. Cuide da saúde física do animal. Forneça abrigo, alimento, vacinas e leve-o regularmente ao médico-veterinário.
  8. Zele também por sua saúde psicológica. Dê atenção, carinho,passeios, mordedores, enriquecimento ambiental e reserve um momento do dia para interagir com ele.

Dificuldade de adoção durante a quarentena

Os dados das ONGs e protetores parceiros do Programa Pedigree Adotar é tudo de bom de 2020 mostraram uma queda no número de adoções em março comparado a fevereiro, mas não houve aumento significativo na quantidade de adoções pela internet. As adoções em eventos que diminuíram porque a partir da segunda quinzena de março os eventos passaram a ser cancelados.

cachorro dormindo no banco de praça

Nós podemos ajudar as ONGs – Hülya Demircioğlu/Creative Commons

“Acredito que a comparação das adoções via internet terá mais resultado em abril quando já não houve nenhum evento. Ainda não temos o fechamento do mês de abril, somente após o dia 10/05” aponta a Ampara Animal.

Apesar da procura por adoção via internet ter aumentado, não necessariamente as adoções se concretizam. “No próprio e-mail do Adote da AMPARA Animal temos recebido mais mensagens, mas muitas pessoas querem filhote porte pequeno (o que a maior parte das ONGs não tem) ou não preenchem o formulário de adoção dando sequência ao processo” relata.

O ponto positivo é que em relação ao número de animais abandonados, a maioria das ONGs e protetores continua recebendo o mesmo volume de pedidos de resgate de antes. O que preocupa é que em alguns locais alguns perceberam mais abandono, talvez por medo e falta de informação em relação a doença ou até mesmo questão financeira. Mas infelizmente não tem como ter certeza. “O número de cães resgatados não quantifica e nem exemplifica o número de animais abandonados. Infelizmente não existe no Brasil órgão que faça esse censo” conta a Ampara Animal.

Com o intuito de aliviar a sobrecarga dos abrigos, a Ampara desenvolveu um programa de Lar Temporário. Nele, os tutores podem pegar um animal, mas, se por algum motivo, não puderem mais cuidar ou ficar com ele, podem devolver para a ONG. “Recebemos muitos e-mails de interessados, mas nem todos preenchem o formulário e nos dão retorno. Efetivamente temos 13 animais em lares temporários” observa a Ampara Animal.

Abrigos pedem ajuda!

No meio dessa pandemia, as ONGs e protetores tiveram uma drástica diminuição da ajuda que recebiam. Doações em eventos, padrinhos, madrinhas, ajuda financeira, tudo isso diminuiu.

Existem diversas formas de ajudar.

A Gabriela Masson, fundadora do projeto Amigos de São Francisco conta que através do Instagram do projeto foi possível dar continuidade ao número de animais doados. Assim, divulgar nas redes sociais os animais para adoção já é de grande ajuda. Além de fazer doações em medicamentos, ração e dinheiro, você também pode apadrinhar um animal.